“Casa arrumada é assim” – por Lena Gino

“Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa com janelas de aurora e árvores no quintal. Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores. O que desejo é apenas uma casa em uma rua sem nome. Sem nome, porém honrada, Senhor.
Só não dispenso a árvore, porque é a mais bela coisa que nos destes e a menos amarga. Quero de minha janela sentir os ventos pelos caminhos, e ver o sol dourando os cabelos negros e os olhos de minha amada…”- Manoel de Barros

Quando passamos a morar sozinho sem perceber criamos algumas manias, seja de limpeza ou de organização. É importante ler e pensar no texto de Lena Gino para saber a diferença entre organização e neurose, entre estar sozinho e ser solitário. A vida é muito mais que uma casa arrumada. Aliás, quando realmente vivemos com mais leveza e olhamos a vida com mais poesia, entendemos também a diferença (a sutil diferença) entre ter uma casa e viver num lar.

Olhe para sua casa, tem uma arvore dentro dela. Abra a janela, deixa a poesia entrar e boa leitura!

(maria ramos)

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Casa arrumada é assim…

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.”

(Texto do blog Mundo Paralelo – por Lena Gino – todos os direitos e créditos reservados)

Sobras

Do que é feito o amor?

emoções inexplicadas

Do que é feita a dor?

lembranças inacabadas

E o que restou do amor?

palavras espalhadas pelo caminho

E o que restou da dor?

um não sei o que de sozinho

Do que é feito o tempo?

fragmento das horas

Do que é feito um momento?

passatempo sem demora

E se ainda me resta tempo, escrevo historia

com a sobra do momento tatuada na memória.

(maria ramos)

Limpe os olhos – um texto de Gustavo Gitti

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“O casal foi dormir brigado. No dia seguinte, os olhos se abrem, mas não muito: eles levam a briga para o trabalho, imaginando que o outro faz o mesmo. Mais tarde, paira a necessidade de retomar o foco da noite passada. É como se houvesse uma névoa impedindo o acesso ao frescor do novo momento: “ele ainda é aquele que me disse tal absurdo.” Na outra cena que abre essa coluna, uma pessoa passa por diferentes mundos em poucas horas, como nunca foi possível na história da humanidade: do pilates para os incontáveis e-mails, do almoço com a mãe ao Skype com a namorada, tudo sem deixar de acompanhar grupos bem diferentes em conversas no Whatsapp.

Ao fim do dia, chega em casa exausta, como se os olhos estivessem poluídos, como se boa parte do que passou por eles tivesse grudado. Em vez de parar, o que ela faz? Reconta e comenta seu dia, internamente ou para quem estiver perto. Levamos as perturbações de um mundo para dentro do outro, de uma relação para a outra, costurando uma coerência que não existe, conectando eventos independentes e tomando decisões a partir daí: “Vou terminar esse namoro! Há três meses tenho sentido isso, ele se tornou tal pessoa, tem também a crise hídrica, enfim, acho que é o momento.”

Nosso corpo se entorta em algum lugar e então vamos tortos para todos os lugares. Às vezes juntamos várias pequenas oscilações de energia em uma bola de neve e decretamos: “Eu sou uma pessoa horrível, minha vida inteira não tem saída, estou em depressão!”. As sensações de correria, pendência, desânimo, acúmulo, certeza, seriedade – de fracasso e até mesmo de sucesso – só surgem porque somos incapazes de soltar. Soltar o quê? Histórias, tensões no corpo, visões empedradas sobre nós mesmos e sobre os outros, falatório interno, lembranças compulsivas, fabricações mentais tomadas como realidade, antecipações, expressões faciais, fixações de todo tipo. “Não importa qual aparência surja, limpe os olhos, de novo e de novo.” Foi algo assim que ouvi da tutora que me apoiou em um retiro fechado de silêncio.

Imagine uma tela de cinema na qual todos os filmes se sobrepõem, ou um espelho que guarda tudo o que reflete: depois de pouco tempo não dá para ver mais nada. Nossos olhos são assim. Convido você para um experimento: nos próximos dias, entre dois momentos, pare por alguns segundos e solte o que acabou de acontecer. Deixe que aquilo se vá, não costure com outra coisa. Ao fazer isso, você verá que a energia surge, assim como podemos estar quase dormindo em uma palestra chata, mas logo acordamos dispostos ao ver que chegou o slide final.

É sempre possível inaugurar a vida. Não precisamos esperar por uma crise para começar do zero (melhor que recomeçar). Teste agora mesmo, ao acabar a leitura: deixe cair os ombros, desobstrua a respiração, relaxe a mandíbula, a língua, a garganta. Solte o texto junto com a exalação, sem pressa de encontrar o momento seguinte com os olhos claros, vazios de conteúdo. Ah…”

(texto de Gustavo Gitti – todos os direitos e créditos reservados) – site gustavogitti.com

“O fogão de lenha é lugar de saudade” – por Rubem Alves

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Recentemente estive numa cidade do interior paulista e me deparei com hortas, galinhas soltas no quintal, cavalos e charretes, fumaça pela chaminé da casa, cheirinho de broa e café feito em coador de pano. Fiquei por alguns minutos fascinada como se essas imagens fossem novas pra mim, mas que na verdade foram apenas esquecidas ou apagadas. Recordei minha avó preparando um pão no fogão de lenha, recolhendo alfaces da horta no quintal ou ate mesmo quarando a roupa no varal… Redes nas varandas, pés descalços, balanços, fogão de lenha, gados pastando soltos pelas colinas, portões e janelas abertas, quintais e moda de viola… quanta lembrança boa! E quando quase tudo me remetia saudade e me achando envelhecida e saudosista demais, leio esse pequeno trecho de uma crônica de Rubem Alves e percebo que minha memória não está velha, ela simplesmente se tornou poética.

Se aconchegue na cozinha, prepare um café, puxe suas lembranças, põe na vitrola aquela moda de viola que seu pai gostava e ótima leitura!

(maria ramos)

Trecho da crônica de Rubem Alves extraída do livro A Grande Arte de Ser Feliz

“O céu estava enfarruscado. O vento soprava nuvens cinzentas desgrenhadas. Nem lua nem estrelas. Bem dizia minha mãe que em dia de chuva elas se escondem, por medo ficar molhadas. A gente se lembrou de Prometeu: Foi ele quem roubou dos deuses o fogo – por dó dos mortais em noites iguais àquela. Se não fosse por ele, o fogo não estaria crepitando no fogão de lenha. O fogo fazia toda a diferença. Lá fora estava frio, escuro e triste. Na cozinha estava quentinho, vermelho e aconchegante. No fogo fervia a sopa: o cheiro era bom, misturado ao cheiro da fumaça.

Comida melhor que sopa não existe. Se eu tivesse de escolher uma comida para comer pelo resto da vida não seria nem camarão, nem picanha, nem lasanha. Seria sopa. Sopa é comida de pobre, que pode ser feita com as sobras. Pela magia do fogo, caldeirão, água e qualquer sobra vira sopa boa. Tem até a história da sopa de pedra…

O fogo é um poder bruxo, tem o poder de irrealizar o real: Os olhos ficam enfeitiçados pela dança das chamas, os objetos em volta vão perdendo os contornos, acabam por transformar-se em fumaça. Quando isso acontece, começam a surgir, do esquecimento em que estavam guardadas, as coisas que a memória eternizou. O fogo faz esquecer para poder lembrar. Digo sempre para os meus clientes que, em vez do divã, que lembra maca de consultório médico, eu preferiria estar senado diante de um fogão aceso. É diante do fogo que a poesia aparece melhor. Não admira que Neruda tivesse dito que a substância dos poetas são o fogo e a fumaça.

O fogão de lenha é lugar de saudade. Porque os fogões de lenha, eles mesmos, são fantasmas de um mundo que não mais existe. […] 

Aí a memória poética se transforma em imaginação teológica. Já sugeri que teologia é coisa que deve ser feita na cozinha. Claro que não é qualquer cozinha. Cozinha de microondas e fogão a gás não serve. Sei que é mais prático. Fogão a lenha é coisa complicada. É preciso muita arte para acender o fogo. E é preciso cuidado para que ele não se apague. Mas que sonhos me fazem sonhar um forno de microondas? Que sonhos fazem sonhar um fogão a gás? […]” – Rubem Alves

Crônicas de maria: Da janela eu vejo

Open-windowQuase todas as manhãs pelo instagram, vejo belas paisagens da cidade de São Paulo com a seguinte legenda “da janela do meu apê”. Fico fascinada com as fotografias quase sempre “sem filtro” e mesmo não querendo, acabo comparando com a vista que tenho “da janela do meu apê”.

Não tenho o privilegio de morar em uma cobertura, por isso da minha janela vejo apenas um emaranhado de outras janelas e sacadas cercadas de prédios por todos os lados, visão que só quem mora em sampa consegue entender.

E foi numa manhã qualquer, que tentando fotografar o céu com o pouco de espaço que me resta de visão azul, comecei a reparar que mesmo sem grandes céus minha vista tem lá seu charme poético porque guarda alguns mistérios.

Vejo o moço do 3º andar, que coloca duas cadeiras na sacada – uma branca e uma amarela – sempre na mesma posição, uma de frente para  outra como quem espera uma visita para aquela conversa olho no olho.

Os vasinhos da moça da sacada do 2º andar sempre bem arrumadinhos com seus quadros e mensagens na parede, tão delicado que mais parece o lugar preferido do apê (quem sabe não é?)

Tem a bagunça e a desorganização do rapaz do 5º andar, as vezes sem tempo para arrumar e organizar sua própria vida.

O cachorro preguiçoso do andar de baixo, sempre deitado no seu espaço olhando para o dono que nunca deixa a porta fechada, demonstrando uma total parceria de cumplicidade e confiança.

A mochila rosa do 3º andar do lado esquerdo e a janela da direita sempre aberta com as cortinas brancas soltas e ao vento, lembrando até um certo ar de liberdade vigiada.

E o que dizer dos segredos guardados do vizinho do térreo, que nunca abre suas portas? Não digo nada, afinal num mundo de redes sociais, privacidade é um privilegio para poucos.

Enfim… sempre haverá beleza na vida se abrirmos “nossas janelas interiores”. Nessa manhã percebi que da janela do meu apê eu também vejo um céu de poesia, não importa se ele está ou não azul, afinal como diz José Saramago no livro Ensaio Sobre a Cegueira,  A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”

(maria ramos)

Tempo de chuva

6Antes da chuva chegar é necessário pular amarelinha, plantar  roseira, dançar na ponta da bailarina

Colher fruta do conde, recolher roupa no varal, esconde esconde, pic nic no quintal

Subir no pé de jabuticaba, pé no chão, ler conto de fada, voar bolinha de sabão

Decifrar nuvem no céu, sentar na beira da calçada, poetizar Cordel até a lua ficar prata

Enxergar o que não é importante, cochilar na varanda, descansar horizonte

Ser remanso, navegar barquinho, sorrir com o mar ate sumir passarinho…

É necessário ficar mudo antes de tudo, mergulhar fundo e sonhar… antes da chuva chegar.

(maria ramos)  #poesiademaria #tempoparamaria

“Sociedade dos poetas mortos” – um filme que nos ensina a viver poeticamente – por Paulo Cesar Paschoalini

maxresdefault-4-696x365Quando assisti esse filme, eu tinha apenas 25 anos de idade. Hoje com já 52, eu entendo o porque “Sociedade dos poetas mortos” faz parte da minha coleção de filmes favoritos.

A arte de pensar e deitar sobre as palavras, me acalanta. Acredito que poesia não se explica, apenas se sente e com o tempo tornou-se minha segunda pele. Lendo esse belíssimo texto do escritor Paulo Cesar Paschoalini, foi impossível não me emocionar novamente e seria um desrespeito resumi-lo. Por isso ele está aqui na integra, com toda minha reverencia e agradecimento ao autor.

Tenho certeza que todos os amantes da arte da palavra, fazem parte dessa sociedade poética chamada Vida. Boa leitura!

(maria ramos)

“Trata-se de uma produção norte-americana do ano de 1989, indicada ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator, além de Melhor Roteiro Original, sendo, nessa última, laureado com a estatueta. Seus ingredientes são do final dos anos 50, numa época marcada por transformações sociais. Mostra a história de uma classe de alunos do tradicional colégio Welton, cujas palavras de ordem eram “tradição, disciplina, honra e excelência”, um modelo de educação que os pais almejavam para seus filhos, já que exerciam forte influência sobre o futuro deles.

Durante a cerimônia de abertura do ano letivo, o novo professor, John Keating, é apresentado aos estudantes e, devido a seus métodos pouco convencionais, ganha a simpatia dos alunos, mas, em contrapartida, provoca incômodo à Direção do Colégio.

Conhecimento, vontade e liberdade:

O filme é repleto de situações que podem nos remeter a muitos pensadores, haja vista que a busca do conhecimento, vontade e liberdade sempre foram objetos de reflexão. Para Sócrates, por exemplo, a educação tinha como finalidade não somente a transmissão de conhecimento, mas a busca do autoconhecimento, conforme sua célebre frase “conhece-te a ti mesmo”.

No decorrer da trama, o Prof. Keating acaba alimentando as divergências entre pais e filhos na escolha da carreira, instigando os alunos a se questionarem sobre suas vontades. Seus métodos de ensino acendem o conflito entre a tradição do Colégio e a liberdade de escolha dos jovens. Ainda mencionando Sócrates, “uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”.

A questão da liberdade é levantada desde o início do filme, quando os alunos são obrigados a se curvarem aos princípios embasados nos quatro pilares da Instituição. Entregues aos cuidados do Colégio, passam a adotar uma postura quase militar, o que impede eventuais expressões “fora dos padrões”.

No existencialismo de Jean Paul Sartre, o filósofo francês desvincula a liberdade da vontade divina e conceitua que ela é uma decisão individual. “O homem é condenado a ser livre”, sendo, portanto, único responsável por suas escolhas, não havendo determinismo, um destino pré-estabelecido na vida.

Destaque para o personagem Neil Perry, estudante entusiasta das ideias de Keating, que resolve seguir seu coração e, movido pela poesia, descobre o teatro como objetivo de vida. Mas essa escolha esbarra na vontade do pai, que decide que filho será médico. Ao ver seu sonho frustrado, o jovem lança mão de uma atitude trágica.

Entendo que “Sociedade dos Poetas Mortos” é um filme denso, que aborda vários níveis de relacionamento humano, ficando explicita a dissonância nas relações entre instituição e professor, colégio e alunos, educador e educandos, pais e filhos, além das diferenças de atitude entre os próprios estudantes.

Decorridos mais de meio século, ainda persistem os questionamentos quanto aos objetivos das instituições, padrões e qualidade de ensino, relações familiares e métodos de educação, insatisfações da juventude, entre outros. Enfim, reflexos do comportamento humano, na eterna e intrincada busca por uma convivência mais harmônica.

Para finalizar, vale lembrar a poesia de Henry Thoreau, mencionada no filme:

“Fui para os bosques para viver deliberadamente, para sugar todo o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida, e, para quando morrer, não descobrir que não vivi”.

Nela está contida a necessidade de se viver intensamente a vida, tal qual a expressão Carpe diem, que vem do latim e que significa “colha o dia”, ou “aproveite o momento”.

 

Um texto de Paulo Cesar Paschoalini http://pirafraseando.blogspot.com.br/

Credito : Portal Raízes www.portalraizes.com

Tormenta

tumblr_ldfthwexQM1qclwmjo1_500[1]O que vem de dentro não me acalma, minha alma pede tormento

Você me fez chegar ate aqui, agora me deixa ir, seguir sem pés ancorados

Não me prenda nesse cais, me dê uma chance ou mais velas para içar, horizontes além mar

Não me pede pra ficar. Deixo sobre a mesa de estar o colar de contas, um conto, uma poesia e a saudade em fotografia

Nas minhas entranhas habita uma história que precisa construir memória, para antes do fim, libertar o passado que há em mim

Sou um viajante sem estrada, uma boemia sem madrugada

Preciso de tormento, um momento de loucura para uma alma quase nua.

(maria ramos)

“Tudo que eu devia saber na vida aprendi no jardim de infância” – por Robert Fulghum

Quando crianças, parece que encaramos a vida como se estivéssemos num eterno jardim de infância, sem perceber que de alguma forma a vida já nos mostra grandes e valiosas lições. Esse é um texto que sempre gosto de ler, não apenas pela simplicidade das palavras mas também pela profunda reflexão que ele me convida a fazer.

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Tudo que eu preciso mesmo saber sobre como viver, o que fazer, e como ser, aprendi no jardim-de-infância. A sabedoria não estava no topo da montanha mais alta, no último ano de um curso superior, mas no tanque de areia do pátio da escolinha maternal.

Vejam o que aprendi:

– Dividir tudo com os companheiros.

– Jogar conforme as regras do jogo.

– Não bater em ninguém.

– Guardar os brinquedos onde os encontrava.

– Arrumar a “bagunça” que eu mesmo fazia.

– Não tocar no que não era meu.

– Pedir desculpas, se machucava alguém.

– Lavar as mãos antes de comer.

– Apertar a descarga da privada.

– Biscoito quente e leite frio fazem bem à saúde.

– Fazer de tudo um pouco – estudar, pensar e desenhar, pintar, cantar e dançar, brincar e trabalhar, de tudo um pouco, todos os dias.

– Tirar uma soneca todas as tardes.

– Ao sair pelo mundo, cuidado com o trânsito, ficar sempre de mãos dadas com o companheiro e sempre “de olho” na professora.

Pense na sementinha de feijão, plantada no copo de plástico: as raízes vão para baixo e para dentro, e a planta cresce para cima – ninguém sabe como ou por quê, mas a verdade é que nós também somos assim.

Peixes dourados, porquinhos-da-índia, esquilos, hamsters e até a semente no copinho plástico – tudo isso morre. Nós também. E lembre-se ainda dos livros de histórias infantis e da primeira palavra que você aprendeu, a mais importante de todas: Olhe! Tudo que você precisa mesmo saber está por aí, em algum lugar. A regra de ouro, o amor e os princípios de higiene. Ecologia e política, igualdade e vida saudável.

Escolha um desses itens e o elabore em termos sofisticados, em linguagem de adulto; depois aplique-o à vida de sua família, ao seu trabalho, à forma de governo de seu país, ao seu mundo, e verá que a verdade que ele contém mantém-se clara e firme. Pense o quanto o mundo seria melhor se todos nós – o mundo inteiro – fizéssemos um lanche de biscoitos com leite às três da tarde e depois nos deitássemos, sem a menor preocupação, cada um no seu colchãozinho e cobertor, para uma soneca. Ou se todos os governos adotassem, como política básica, a ideia de recolocar as coisas nos lugares onde estavam quando foram retiradas; arrumar a “bagunça” que tivessem feito.

E é verdade, não importa quantos anos você tenha: ao sair pelo mundo, vá de mãos dadas, e fique sempre “de olho” no companheiro.”

maria ramos

(Texto de Robert Fulghum - todos os direitos e creditos reservados)

Tanto jaz

large (4)já te escrevi em tantos versos

já te bebi em tantos porres

já te sonhei em tantas madrugadas

já te conjuguei em tantos verbos

já te amanheci em tantos braços

já te descobri em tantos segredos

já chorei, sorri, me embriaguei, desamei, já morri, renasci…

(maria ramos)