Diálogo de amor – “a gente precisa estar atento para não estragar as crianças” – Um lindo texto de Lucas Tauil de Freitas

1509110_643794122375226_3438408401778165112_n[1]“É da maneira com que falamos com as crianças que nasce a voz interior que vai acompanhá-las por toda a vida.” A frase que escutei da pedagoga Mary Willow tornou-se um dos faróis pelo qual navego a vida. Tom de voz, atitude, equilíbrio e a intenção profunda com que nos dirigimos aos pequenos moldam seu encontro com a linguagem. Essa mesma fala dá vida ao diálogo interno que os habita e, por vezes, inferniza. Há 13 anos mergulhei no universo da educação com o nascimento de Clara, minha primeira filha. Entrei nessa água pelo quintal mágico de Terezita Pagani, fundadora da escola Te Arte, em São Paulo. A sabedoria dessa capixaba polia mães e pais para que não estragassem as crianças. Quando fomos viver em Paraty, no Rio, sentimos por não haver uma escola como aquela. Angustiado, procurei a Terezita. E ela me disse: “Se não tem, faça uma”. Respondi que não sabia nada de educação, que era jornalista e minha mulher, publicitária. Então ela me sugeriu uma conversa com Ada Pelegrino, uma psicóloga com larga experiência com grupos e suas dinâmicas.  Lá fomos Sandra e eu encontrá-la. Ada, com sua serenidade, nos aconselhou: “Não pensem em fundar uma escola. Um passo de cada vez. Façam um bolo e convidem outros pais com as mesmas questões para conversar”. Reunimos oito casais, um par de bolos e, semanas depois, nascia o Quintal Mágico, em Paraty. Érica Zanventor, uma das mães do grupo, assumiu o papel de professora com o apoio da Fabíola Guadix. O sonho ganhava asas. As meninas foram para São Paulo estagiar na Te Arte e, enquanto isso, conseguimos um casarão com jardim em troca das reformas necessárias no imóvel. De frente para o rio, nossas crianças nos viram bater o chão da casa, que estava no contrapiso. Um grupo sincrético com pescadores, agrônomos, artesãos e toda sorte de profissões caiava paredes, limpava entulho e envernizava. O desafio de iniciar uma escola crescia. Um casal de pais, Lena Miller e Pablo Pontes, tinha experiência com a pedagogia Waldorf e convidou a pedagoga carioca Denise Domingues, a Nina, para nos oferecer uma palestra. Estávamos entusiasmados com o método criado por Rudolf Steiner, que integra o desenvolvimento físico, espiritual e artístico. Mas tínhamos um pouco de resistência, já que muitas escolas que seguem essa linha são também elitistas. Isso se derreteu com a experiência de Nina na favela da Maré, no Rio. Queríamos um lugar para todos e acessível para a gente simples dali. A escola tomou vida própria. Mas nossos rumos, um dia, se separaram. Sandra, Clara, Júlia e eu soltamos as amarras e navegamos. Foram três anos entre Brasil e Nova Zelândia e educamos as meninas a bordo. Em Auckland, encontramos uma escola na vila de Titirangi e lá estamos. E foi com os desafios adolescentes da minha primogênita Clara que descobri o aconselhamento de Mary Willow. E me lembrei de que a gente precisa estar atento para não estragar as crianças. Minha menina virou moça e trabalha para ser a voz gentil e firme que a apoia.”

Um texto de LucasS Tauil de Freitas – todos os direitos reservados. Creditos Revista Vida Simples digital

Uma ideia sobre “Diálogo de amor – “a gente precisa estar atento para não estragar as crianças” – Um lindo texto de Lucas Tauil de Freitas

  1. Um texto que faz lembrar e pensar como é gratificante seguir sonhos e desejos mesmo que no meio do caminho os rumos se alterem. Às vezes se alteram para uns, mas outros seguem o caminho e dão nova feição ao que um dia começou.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>