Crônicas de maria: A décima quarta lua

A geração Bossa Nova já havia se consolidado, jovens clamavam liberdade pelas ruas e Janis Joplin começava a encantar o mundo com sua voz marcante. Mas Nina era diferente de tudo isso. Menina introspectiva, se perdia entre livros de poesia, romances de Shakespeare, filmes e partituras de musica clássica. Seu maior amigo era um piano que ficava no canto da sala ao lado da antiga poltrona azul. Era ali que Nina gostava de ficar, quase sempre nas madrugadas de lua nova.

tumblr_m0y8c9d7pe1rriptvo1_500[1]Como sempre foi curiosa, aprendeu a tocar, sonhar e “viajar” sozinha pelas melodias de Chopin, Mozart e seu amado imortal Beethoven. Dizia que o som das teclas do piano era o seu passaporte imaginário. Pelo fascínio da musica clássica e amor ao piano, Nina desenvolveu uma cumplicidade única e ao mesmo tempo poética. Sua liberdade era a janela aberta e em quase todas as madrugadas que tocava, a lua estava presente. Lendo as notas musicais, repetia: “Se pudesse ser uma sonata, gostaria de ser a décima quarta”.

O tempo passou, a Bossa Nova se tornou inesquecível assim como a voz de Janis Joplin. As mãos de Nina ganharam marcas e o piano já guardava algumas teclas amareladas. Nas noites de lua nova, o reflexo na janela iluminava as antigas fotografias sobre o móvel.

Nina, agora com passos lentos, senta na mesma poltrona azul no canto da sala, olha para a jovem menina de sorriso doce, dedos longos e delicados, que abre uma partitura ao mesmo tempo que abre a janela e diz:

- Vovó, essa lua é pra você! – E começa a tocar Moonlight, a Sonata numero 14 de Beethoven.

Nina lentamente fecha os olhos e carimba seu passaporte imaginário numa viagem inesquecível ao som do seu amado imortal. Finalmente ela seria uma estrela, ou quem sabe uma sonata, como sempre sonhou…

(maria ramos)

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