crônicas de maria: Espelho, espelho meu

large[1]Ele achou o cartão de visita e por algum tempo ficou pensativo, olhando e repetindo a descrição  terapeuta, terapeuta, terapeuta…

Depois de muito hesitar, tomou coragem e marcou uma consulta. Chegou até o consultório. Tudo bem organizado, livros em ordem na estante, secretária falando baixo, velas aromatizadas, musica ambiente, ninguém esperando. A hora estava reservada somente para ele. Se identificou, aceitou  um café, sentou e enquanto aguardava, pensava como seria deitar num divã! Uma mistura de incomodo com curiosidade tomava conta daqueles minutos de espera.

Vários amigos já haviam comentado que terapia não era nenhum bicho de sete cabeças e por isso resolveu “arriscar”, afinal era só um bate papo de 40 minutos pra tudo estar resolvido. Nada mais simples e objetivo.

Ouviu o barulho da maçaneta se abrindo. Viu saindo da sala uma mulher super elegante, não mais do que 40 anos e com um sorriso estampado no rosto se despediu dizendo – “Ate a próxima semana!”

Próxima semana?! Como assim? O que se tem para falar com um estranho por mais uma semana que não se fala em 40 minutos?

Enfim, chegou a sua vez. A secretaria o acompanhou até a sala, fechou a porta e ele ficou ali frente a frente com a terapeuta, imóvel. As mãos nessas horas parecem que se transformam em oito como se fossem polvos, não há espaço para elas, não se sabe se as colocamos no bolso, ou se cruzamos os braços… Ele estendeu a mão e disse simplesmente – Muito prazer!

- Sente-se por favor! – disse ela.

Olhou discretamente e frustrado não viu nenhum divã. - Deve ser coisa de profissional moderno, mas sem divã fica difícil dar credito para essa terapeuta. Nunca assisti um filme sem que o paciente não se deitasse num divã…

Enquanto pensava, ela sentou  na poltrona a sua frente e com um boa postura, um sorriso de boas vindas, olho no olho lhe disse: - E então! O que te trouxe ate aqui?

- O que quer dizer? Ou… ou  o que quer que eu diga? – ele perguntou meio já sem graça e um pouco nervoso.

- Podemos começar por  “definir” Quem é você? – ela tentou dar inicio a conversa.

Olho no olho novamente e por alguns minutos ficou sem dizer nada. – Como me definir numa terapia? Sou alto, baixo, gordo, magro, advogado, medico, casado, solteiro, rico, pobre, tímido, extrovertido, simpático, um moço simples do interior, um idealista, romântico sonhador  ou um mala rsrs… Isso é definição ou característica? – Nunca imaginou (ou parou verdadeiramente pra pensar) que uma simples pergunta fosse tão complexa e de difícil resposta.

As horas foram passando, a terapeuta (tentando deixa-lo mais a vontade) realizou alguns testes de personalidade, fez algumas anotações. – Gostaria de te ver na próxima semana. Veja se interessa continuar a terapia, mas fique a vontade para dizer “não”.

Ele, sem entender muito o impulso, estendeu a mão e já se despedindo respondeu: – Até a próxima semana… e… no mesmo horário.

Saiu da sala e do consultório calado e ainda mais pensativo.

Chegou em casa, tomou um longo banho. Sentou na cama, revirou as paginas de alguns livros e ali sozinho em devaneios com seus questionamentos e com a misteriosa pergunta latente em seu pensamento, encarou o espelho ao lado da cama…

- Muito bem amigo! Agora somos só nós dois, sem mascaras. Me responda! Preciso saber ou descobrir essa resposta: – Quem é você? Quem somos nós?…

(maria ramos)

3 ideias sobre “crônicas de maria: Espelho, espelho meu

  1. Adorei seu texto!. Fiquei triste quando acabou. Quero a continuação. Fiquei curiosa para saber se ele encontrou seu ego.
    Maria, vc arrasa!

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