Retratos

Há 3 dias me despedi de uma pessoa muito querida. Há 3 dias perdi todas as minhas fotos registradas em celular e mesmo transferindo para um arquivo, todas, absolutamente todas desapareceram da pasta. O que esses dois acontecimentos tem em comum? Digo que tudo. Porque falo aqui de apegos e de perdas e o quanto eles ainda me abalam, mesmo sabendo que nada é para sempre.

No primeiro momento, assim como a noticia do desencarne, eu também me desesperei com as fotos apagadas. A mesma sensação de vazio e impotência. A ultima foto que tirei com ela vestida com a blusa de bolinha branca que dei de presente no dia do seu aniversário, não estava mais lá para lembrar! O ultimo registro do seu sorriso junto ao meu, simplesmente não era mais possível ver.

IMG_20150927_082224Incrível como guardo memorias em fotografias. São as fotos que resgatam as lembranças, que me transporta para bons momentos. Mas depois que o desespero passou (porque quando aceito o fato, passa), pude perceber que o “apagão” das fotos teve uma razão: Momentos bons são eternos quando guardados dentro de mim e não somente em papeis amarelados. Passei o dia da noticia em silencio e atrás de minhas memorias. Memorias das perdas que já tive, que já vivenciei e o quanto me agarro em fotografias, relicários, porta-retratos sobre estandes e paredes para manter viva as imagens de pai, irmãos, avós, tios, amigos, infâncias, sobrinhos, familia…

Depois de ver as pastas vazias, percebi também que o melhor arquivo e o mais seguro sou eu mesma, e esse só será apagado se eu quiser e só eu posso revelar. Lembranças, historias, encontros, conversas, momentos e sorrisos são sempre bons de ver, mas acredito agora que se tornam ainda melhores, quando sentidos, quando ainda pulsam em mim.

Se vou rever as fotos perdidas novamente? Acho que não, ou é incerto, assim como não verei mais o sorriso dela me dizendo: “- rezo pra você todos os dias”, ou “- ascendi uma vela pra nossa senhora iluminar seus caminhos”. São coisas que jamais vou esquecer e que fotografias não registram, ficarão comigo para sempre.

Sei que vou seguir em frente e fotografar novos sorrisos, novas imagens, mas o que foi perdido não volta, fica na lembrança da alma, e como já disse Içami Tiba, “o sol se foi, agora ficaram as estrelas”. Acredito que toda a perda tem um ganho, toda despedida tem um encontro. Quando estava em viagem ao deserto e pronta para fotografar, o guia me disse: “- Espera! Não fotografe. Fecha os olhos. Quero que registre apenas com seu olhar e com sua emoção tudo que irei te mostrar agora. Abra os olhos!…” Hoje entendo o que ele quis dizer, porque todas as fotos dessa incrível viagem ao Atacama (eu já falei dela por aqui), também foram pedidas. Se não tivesse guardado na emoção, hoje eu realmente só teria uma foto, nada mais que um papel sem alma.

Tenho certeza que fotografar é uma arte, mas se não servir para captar emoções, não faz sentido! Fotografias são belos registros materiais, mas são meus olhos que registram o que minha alma sente. Vou ter saudades das fotos e do sorriso dela, mas vou recomeçar sem eles porque quando aceito as perdas eu me desapego, as lembranças tornam-se mais leves, mais serenas e eternamente bem guardadas. Se quando fotografei eu estava presente de corpo e alma e se o “retrato” ainda não saiu da minha memória, posso dizer que fui (sou) feliz!

(maria ramos)

“E quando o dia não passar de um retrato/ Colorindo de saudade o meu quarto/ Só aí vou ter certeza de fato/ Que eu fui feliz…”

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