O Haver – Vinicius de Moraes

25-de-julho-viníciusEle dispensa apresentação e qualquer resenha que eu fizer,  será pouca diante da presença de tão encantadora beleza poética.

Nascido em 19 de outubro de 1913 Vinicius de Moraes viveu intensamente todos os seus amores, da musica a poesia, da mulher a boemia e não necessariamente nessa ordem.  O apelido de “poetinha” ele ganhou de Tom Jobim e é assim que sempre lembrarei carinhosamente de Marcos Vinicius de Moraes, um poeta de todos os tempos.

Nesse dia 19 de outubro de 2.017 só me resta homenageá-lo, postando um de seus belos poemas.

A benção “poetinha”!   p.s Love

(maria ramos)

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O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.”

15/4/1962 – Vinicius de Moraes, do livro “Jardim Noturno – Poemas inéditos”. Cia das Letras,

 

muito prazer…

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Sou como sopro no silencio

sinto, existo, envolvo

Sou como saudade de verão

desejo, inspiro, espero

Sou como rastro no chão

sigo, desvio, apago

Sou como sol encobrindo a tarde

amanheço, medito, renasço…

Sou o tempo que canta a solidão da liberdade

Sou a felicidade sóbria da palavra embriagada

Sou o penúltimo capitulo do meu conto de fada

Sou feliz, ou talvez

Era uma vez…

(maria ramos)

Sonhos não envelhecem

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“Um único sonho é mais poderoso do que mil realidades.”.

Confesso que não sou muito fã desses realitys sobre o mundo da gastronomia, por isso os nomes dos participantes sempre passam despercebidos em minha timeline.

Mas, como a frase acima é de autoria do escritor J.R.R Tolkien, que eu logo associo a grande e belíssima saga (obra) – que sou mega fã -  “O senhor dos anéis”, parei para ler e fiquei surpreendida com a historia de Caroline Martins que mesmo eliminada de um desses realitys, não pendurou seu avental.

É fato que nem todas as receitas dão certo logo na primeira tentativa. As vezes a massa desanda, o pão não cresce ou o forno não aquece o suficiente. Mas se cozinhar é fazer poesia para ser degustada, não desistir dos sonhos e testar novas receitas para provar novos sabores, é uma obra de arte e a receita perfeita da vida.

Vale a pena ler o texto (ou desabafo) de Caroline, diretamente da escola Cordon Bleu de Londres. Isso mesmo que você leu!  Cordon Bleu – está bom para você?

Boa leitura!

(maria ramos)

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“Eu tinha um sonho: estudar na melhor escola de gastronomia do mundo, a Le Cordon Bleu. Por este sonho, este ano, me inscrevi em um reality show. Quando fui eliminada um dos jurados me disse “Caroline, o seu sonho acabou.”; A outra jurada, se referindo aos meus quatro títulos acadêmicos, falou “Você não precisa de um título a mais, você já tem muitos.”; Pois bem, neste momento estou em frente ao prédio da Le Cordon Bleu em Londres esperando pela minha primeira aula, e cá estou refletindo sobre sonhos. Pois afinal, onde já se viu uma mulher com mais de 30 anos querer mudar de carreira? Como ousa desperdiçar 10 anos de formação para se tornar estudante novamente? Os trinta é o período para casamento, ter filhos, comprar casa, formar família, pagar previdência privada, entre outras coisas a mais. A sociedade te pede para fazer uma escolha de vida aos 17 anos (vestibular), e espera que você carregue esta escolha até o túmulo. Te perguntam “está trabalhando”?”, “comprou carro novo?”, “quando chega o bebê?”, porém não te perguntam “você está feliz?”. Estas imposições se transpareceram na minha participação no programa, pois eu fui, em quase todos os episódios, questionada sobre abandonar minha função como pesquisadora para seguir um sonho. Hoje estou aqui vestindo o meu dólmã, de caderno e lápis na mão, e respondo:
* Não, o meu sonho não acabou. Ele só está começando.
* Não, os títulos que possuo não são suficientes, e talvez todos os títulos que eu conseguir conquistar nunca serão suficientes. Há sempre espaço para aprender e se aperfeiçoar.
Não dê ouvidos aos que querem matar os seus sonhos, pois afinal, meus amigos, como já dizia Tolkien: “Um único sonho é mais poderoso do que mil realidades.”.

Texto escrito por Caroline Martins e extraído da sua pagina no FB em 03/10/2017 https://www.facebook.com/ChefCarolineMartins/