O Haver – Vinicius de Moraes

25-de-julho-viníciusEle dispensa apresentação e qualquer resenha que eu fizer,  será pouca diante da presença de tão encantadora beleza poética.

Nascido em 19 de outubro de 1913 Vinicius de Moraes viveu intensamente todos os seus amores, da musica a poesia, da mulher a boemia e não necessariamente nessa ordem.  O apelido de “poetinha” ele ganhou de Tom Jobim e é assim que sempre lembrarei carinhosamente de Marcos Vinicius de Moraes, um poeta de todos os tempos.

Nesse dia 19 de outubro de 2.017 só me resta homenageá-lo, postando um de seus belos poemas.

A benção “poetinha”!   p.s Love

(maria ramos)

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O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.”

15/4/1962 – Vinicius de Moraes, do livro “Jardim Noturno – Poemas inéditos”. Cia das Letras,

 

Sonhos não envelhecem

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“Um único sonho é mais poderoso do que mil realidades.”.

Confesso que não sou muito fã desses realitys sobre o mundo da gastronomia, por isso os nomes dos participantes sempre passam despercebidos em minha timeline.

Mas, como a frase acima é de autoria do escritor J.R.R Tolkien, que eu logo associo a grande e belíssima saga (obra) – que sou mega fã -  “O senhor dos anéis”, parei para ler e fiquei surpreendida com a historia de Caroline Martins que mesmo eliminada de um desses realitys, não pendurou seu avental.

É fato que nem todas as receitas dão certo logo na primeira tentativa. As vezes a massa desanda, o pão não cresce ou o forno não aquece o suficiente. Mas se cozinhar é fazer poesia para ser degustada, não desistir dos sonhos e testar novas receitas para provar novos sabores, é uma obra de arte e a receita perfeita da vida.

Vale a pena ler o texto (ou desabafo) de Caroline, diretamente da escola Cordon Bleu de Londres. Isso mesmo que você leu!  Cordon Bleu – está bom para você?

Boa leitura!

(maria ramos)

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“Eu tinha um sonho: estudar na melhor escola de gastronomia do mundo, a Le Cordon Bleu. Por este sonho, este ano, me inscrevi em um reality show. Quando fui eliminada um dos jurados me disse “Caroline, o seu sonho acabou.”; A outra jurada, se referindo aos meus quatro títulos acadêmicos, falou “Você não precisa de um título a mais, você já tem muitos.”; Pois bem, neste momento estou em frente ao prédio da Le Cordon Bleu em Londres esperando pela minha primeira aula, e cá estou refletindo sobre sonhos. Pois afinal, onde já se viu uma mulher com mais de 30 anos querer mudar de carreira? Como ousa desperdiçar 10 anos de formação para se tornar estudante novamente? Os trinta é o período para casamento, ter filhos, comprar casa, formar família, pagar previdência privada, entre outras coisas a mais. A sociedade te pede para fazer uma escolha de vida aos 17 anos (vestibular), e espera que você carregue esta escolha até o túmulo. Te perguntam “está trabalhando”?”, “comprou carro novo?”, “quando chega o bebê?”, porém não te perguntam “você está feliz?”. Estas imposições se transpareceram na minha participação no programa, pois eu fui, em quase todos os episódios, questionada sobre abandonar minha função como pesquisadora para seguir um sonho. Hoje estou aqui vestindo o meu dólmã, de caderno e lápis na mão, e respondo:
* Não, o meu sonho não acabou. Ele só está começando.
* Não, os títulos que possuo não são suficientes, e talvez todos os títulos que eu conseguir conquistar nunca serão suficientes. Há sempre espaço para aprender e se aperfeiçoar.
Não dê ouvidos aos que querem matar os seus sonhos, pois afinal, meus amigos, como já dizia Tolkien: “Um único sonho é mais poderoso do que mil realidades.”.

Texto escrito por Caroline Martins e extraído da sua pagina no FB em 03/10/2017 https://www.facebook.com/ChefCarolineMartins/

Toda poesia de Leonard Cohen – “a thousand kisses deep”

12015122_10153705805284644_355056071469776801_oQuando um homem coloca toda sua sensibilidade em canção e faz da palavra a sua melhor matéria prima, não é só um artista,  é verdadeiramente um poeta. Leonard Cohen vai além da sua aclamada Hallelujah -  Nasceu em 21/09/1934  no Canadá e ate hoje (mesmo após sua morte em novembro de 2016), mantém viva a poesia, seja nas canções, nos livros, poemas ou na sua vida. Meu tempo se rende e agradece toda poesia de Leonard Cohen… pra sempre Love!

(maria ramos)

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“Tu me chegaste esta manhã

Tangendo a carne de que sou feito

É preciso ser homem para saber

Quão bom e doce é, quão perfeito

Meu reflexo, meu mais acabado nexo

Em sonhos é que te conheço

E quem se não tu me levarias

À profundidade de mil beijos

Eu te amei quando tu te abriste

Feito um lírio ao sol inteiro

Sou só mais um homem polar

Sob a nevasca e a chuva reteso

Que te amou de um amor gelado

Com um físico já não sem defeitos

Com tudo que é, com tudo que foi

À profundidade de mil beijos

Eu sei que me tiveste de mentir

Que me traíste por teus meios

Para posar tão alta e excitante

atrás de véus tão traiçoeiros

Nossa perfeita aristocrata pornô

Elegante e barata a um só tempo

Estou velho, mas ainda estou no jogo

À profundidade de mil beijos

E eu ainda sigo bebericando o vinho

Ainda danço os passos lentos

A banda toca Auld Lang Syne

O coração não se renderá tão cedo

Eu corri com Diz e Danté

Nunca tive seus torneios

Mas vez ou outra me deixam tocar

À profundidade de mil beijos

O outono deslizou por tua pele

Alguma coisa captou o meu olhar

Uma luz que não precisa viver

E que não tem por que acabar

Um enigma no livro do amor

Obscuro e obsoleto

Até ser aqui testemunhado em tempo e sangue

À profundidade de mil beijos

Sou bom no amor, sou bom no ódio

É no meio que me refreio

Procuro melhorar, mas é muito tarde

Tem sido tarde demais há muito tempo

Mas tu pareces ótima, ótima de fato

Da Boogie Street o maior prêmio

Alguém devia ter morrido por ti

À profundidade de mil beijos

Eu te amei quando tu te abriste

Feito um lírio ao sol inteiro

Sou só mais um homem polar

Sob a nevasca e a chuva reteso

Mas não precisas me ouvir agora

E toda a palavra que eu deito

Depõe contra mim de alguma forma

À profundidade de mil beijos”

 (a thousand kisses deep – Leonard Cohen – 21/09/1934)

“O inferno são os outros”

IMG_20170621_093932_137Por sermos livres somos compelidos a nos inventar dia após dia, pois são as escolhas que moldam a essência do ser livre.                            Filosofo, escritor e critico francês, Jean-Paul Sartre nasceu em 21/06/1905, e seu pensamento livre ate hoje nos ajuda a pensar.

(maria ramos)

 

O inferno são os outros…

“Estamos condenados a ser livres. Essa é a sentença de Sartre para a humanidade. O filósofo e escritor francês, ao lado do argelino Albert Camus, foi um dos maiores representantes do existencialismo, corrente filosófica que nasceu com Kierkegaard e reflete sobre o sentido que o homem dá à própria vida. Para Sartre, a existência do ser humano vem antes da sua essência. Ou seja, não nascemos com uma função pré-definida, como uma tesoura, que foi feita para cortar, por exemplo.

Segundo o filósofo, antes de tomar qualquer decisão, não somos nada. Vamos nos moldando a partir das nossas escolhas. Toda essa liberdade resulta em muita angústia. Essa angústia é ainda maior quando percebemos que nossas ações são um espelho para a sociedade. Estamos constantemente pintando um quadro de como deveria ser a sociedade a partir das nossas ações – o curioso é que o próprio Sartre era viciado em anfetaminas, ou seja, não foi exatamente um exemplo de conduta. Defendia que temos inteira liberdade para decidir o que queremos nos tornar ou fazer com nossa vida. A má-fé seria mentir para si mesmo, tentando nos convencer de que não somos livres. O problema é que nossos projetos pessoais entram em conflito com o projeto de vida dos outros. Eles, os outros, tiram parte de nossa autonomia. Por isso, temos de refletir sobre nossas escolhas para não sair por aí agindo sem rumo, deixando de realizar as coisas que vão definir a existência de cada um. Ao mesmo tempo, é pelo olhar do outro que reconhecemos a nós mesmos, com erros e acertos. Já que a convivência expõe nossas fraquezas, os outros são o “inferno” – daí a origem da célebre frase do pensador francês.

Em uma França devastada após o final da 2ª Guerra, liberdade não era exatamente a palavra do momento. Mas as ideias de Sartre inspiraram toda uma geração de ativistas, como os revolucionários de Paris em maio de 1968, que ajudaram a derrubar o governo conservador francês. O filósofo ficou conhecido também pela sua relação com Simone de Beauvoir, outra ilustre filósofa existencialista. Ela foi sua companheira de toda a vida, apesar de nunca terem firmado um compromisso. Sartre morreu como um filósofo pop. Em 15 de abril de 1980, mais de 50 mil pessoas foram ao seu funeral.”

Texto extraído da revista Super Interessante (redação 29/10/2015) – todos os créditos reservados.

“Casa arrumada é assim” – por Lena Gino

“Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa com janelas de aurora e árvores no quintal. Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores. O que desejo é apenas uma casa em uma rua sem nome. Sem nome, porém honrada, Senhor.
Só não dispenso a árvore, porque é a mais bela coisa que nos destes e a menos amarga. Quero de minha janela sentir os ventos pelos caminhos, e ver o sol dourando os cabelos negros e os olhos de minha amada…”- Manoel de Barros

Quando passamos a morar sozinho sem perceber criamos algumas manias, seja de limpeza ou de organização. É importante ler e pensar no texto de Lena Gino para saber a diferença entre organização e neurose, entre estar sozinho e ser solitário. A vida é muito mais que uma casa arrumada. Aliás, quando realmente vivemos com mais leveza e olhamos a vida com mais poesia, entendemos também a diferença (a sutil diferença) entre ter uma casa e viver num lar.

Olhe para sua casa, tem uma arvore dentro dela. Abra a janela, deixa a poesia entrar e boa leitura!

(maria ramos)

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Casa arrumada é assim…

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.”

(Texto do blog Mundo Paralelo – por Lena Gino – todos os direitos e créditos reservados)

Limpe os olhos – um texto de Gustavo Gitti

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“O casal foi dormir brigado. No dia seguinte, os olhos se abrem, mas não muito: eles levam a briga para o trabalho, imaginando que o outro faz o mesmo. Mais tarde, paira a necessidade de retomar o foco da noite passada. É como se houvesse uma névoa impedindo o acesso ao frescor do novo momento: “ele ainda é aquele que me disse tal absurdo.” Na outra cena que abre essa coluna, uma pessoa passa por diferentes mundos em poucas horas, como nunca foi possível na história da humanidade: do pilates para os incontáveis e-mails, do almoço com a mãe ao Skype com a namorada, tudo sem deixar de acompanhar grupos bem diferentes em conversas no Whatsapp.

Ao fim do dia, chega em casa exausta, como se os olhos estivessem poluídos, como se boa parte do que passou por eles tivesse grudado. Em vez de parar, o que ela faz? Reconta e comenta seu dia, internamente ou para quem estiver perto. Levamos as perturbações de um mundo para dentro do outro, de uma relação para a outra, costurando uma coerência que não existe, conectando eventos independentes e tomando decisões a partir daí: “Vou terminar esse namoro! Há três meses tenho sentido isso, ele se tornou tal pessoa, tem também a crise hídrica, enfim, acho que é o momento.”

Nosso corpo se entorta em algum lugar e então vamos tortos para todos os lugares. Às vezes juntamos várias pequenas oscilações de energia em uma bola de neve e decretamos: “Eu sou uma pessoa horrível, minha vida inteira não tem saída, estou em depressão!”. As sensações de correria, pendência, desânimo, acúmulo, certeza, seriedade – de fracasso e até mesmo de sucesso – só surgem porque somos incapazes de soltar. Soltar o quê? Histórias, tensões no corpo, visões empedradas sobre nós mesmos e sobre os outros, falatório interno, lembranças compulsivas, fabricações mentais tomadas como realidade, antecipações, expressões faciais, fixações de todo tipo. “Não importa qual aparência surja, limpe os olhos, de novo e de novo.” Foi algo assim que ouvi da tutora que me apoiou em um retiro fechado de silêncio.

Imagine uma tela de cinema na qual todos os filmes se sobrepõem, ou um espelho que guarda tudo o que reflete: depois de pouco tempo não dá para ver mais nada. Nossos olhos são assim. Convido você para um experimento: nos próximos dias, entre dois momentos, pare por alguns segundos e solte o que acabou de acontecer. Deixe que aquilo se vá, não costure com outra coisa. Ao fazer isso, você verá que a energia surge, assim como podemos estar quase dormindo em uma palestra chata, mas logo acordamos dispostos ao ver que chegou o slide final.

É sempre possível inaugurar a vida. Não precisamos esperar por uma crise para começar do zero (melhor que recomeçar). Teste agora mesmo, ao acabar a leitura: deixe cair os ombros, desobstrua a respiração, relaxe a mandíbula, a língua, a garganta. Solte o texto junto com a exalação, sem pressa de encontrar o momento seguinte com os olhos claros, vazios de conteúdo. Ah…”

(texto de Gustavo Gitti – todos os direitos e créditos reservados) – site gustavogitti.com

“O fogão de lenha é lugar de saudade” – por Rubem Alves

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Recentemente estive numa cidade do interior paulista e me deparei com hortas, galinhas soltas no quintal, cavalos e charretes, fumaça pela chaminé da casa, cheirinho de broa e café feito em coador de pano. Fiquei por alguns minutos fascinada como se essas imagens fossem novas pra mim, mas que na verdade foram apenas esquecidas ou apagadas. Recordei minha avó preparando um pão no fogão de lenha, recolhendo alfaces da horta no quintal ou ate mesmo quarando a roupa no varal… Redes nas varandas, pés descalços, balanços, fogão de lenha, gados pastando soltos pelas colinas, portões e janelas abertas, quintais e moda de viola… quanta lembrança boa! E quando quase tudo me remetia saudade e me achando envelhecida e saudosista demais, leio esse pequeno trecho de uma crônica de Rubem Alves e percebo que minha memória não está velha, ela simplesmente se tornou poética.

Se aconchegue na cozinha, prepare um café, puxe suas lembranças, põe na vitrola aquela moda de viola que seu pai gostava e ótima leitura!

(maria ramos)

Trecho da crônica de Rubem Alves extraída do livro A Grande Arte de Ser Feliz

“O céu estava enfarruscado. O vento soprava nuvens cinzentas desgrenhadas. Nem lua nem estrelas. Bem dizia minha mãe que em dia de chuva elas se escondem, por medo ficar molhadas. A gente se lembrou de Prometeu: Foi ele quem roubou dos deuses o fogo – por dó dos mortais em noites iguais àquela. Se não fosse por ele, o fogo não estaria crepitando no fogão de lenha. O fogo fazia toda a diferença. Lá fora estava frio, escuro e triste. Na cozinha estava quentinho, vermelho e aconchegante. No fogo fervia a sopa: o cheiro era bom, misturado ao cheiro da fumaça.

Comida melhor que sopa não existe. Se eu tivesse de escolher uma comida para comer pelo resto da vida não seria nem camarão, nem picanha, nem lasanha. Seria sopa. Sopa é comida de pobre, que pode ser feita com as sobras. Pela magia do fogo, caldeirão, água e qualquer sobra vira sopa boa. Tem até a história da sopa de pedra…

O fogo é um poder bruxo, tem o poder de irrealizar o real: Os olhos ficam enfeitiçados pela dança das chamas, os objetos em volta vão perdendo os contornos, acabam por transformar-se em fumaça. Quando isso acontece, começam a surgir, do esquecimento em que estavam guardadas, as coisas que a memória eternizou. O fogo faz esquecer para poder lembrar. Digo sempre para os meus clientes que, em vez do divã, que lembra maca de consultório médico, eu preferiria estar senado diante de um fogão aceso. É diante do fogo que a poesia aparece melhor. Não admira que Neruda tivesse dito que a substância dos poetas são o fogo e a fumaça.

O fogão de lenha é lugar de saudade. Porque os fogões de lenha, eles mesmos, são fantasmas de um mundo que não mais existe. […] 

Aí a memória poética se transforma em imaginação teológica. Já sugeri que teologia é coisa que deve ser feita na cozinha. Claro que não é qualquer cozinha. Cozinha de microondas e fogão a gás não serve. Sei que é mais prático. Fogão a lenha é coisa complicada. É preciso muita arte para acender o fogo. E é preciso cuidado para que ele não se apague. Mas que sonhos me fazem sonhar um forno de microondas? Que sonhos fazem sonhar um fogão a gás? […]” – Rubem Alves

“Sociedade dos poetas mortos” – um filme que nos ensina a viver poeticamente – por Paulo Cesar Paschoalini

maxresdefault-4-696x365Quando assisti esse filme, eu tinha apenas 25 anos de idade. Hoje com já 52, eu entendo o porque “Sociedade dos poetas mortos” faz parte da minha coleção de filmes favoritos.

A arte de pensar e deitar sobre as palavras, me acalanta. Acredito que poesia não se explica, apenas se sente e com o tempo tornou-se minha segunda pele. Lendo esse belíssimo texto do escritor Paulo Cesar Paschoalini, foi impossível não me emocionar novamente e seria um desrespeito resumi-lo. Por isso ele está aqui na integra, com toda minha reverencia e agradecimento ao autor.

Tenho certeza que todos os amantes da arte da palavra, fazem parte dessa sociedade poética chamada Vida. Boa leitura!

(maria ramos)

“Trata-se de uma produção norte-americana do ano de 1989, indicada ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator, além de Melhor Roteiro Original, sendo, nessa última, laureado com a estatueta. Seus ingredientes são do final dos anos 50, numa época marcada por transformações sociais. Mostra a história de uma classe de alunos do tradicional colégio Welton, cujas palavras de ordem eram “tradição, disciplina, honra e excelência”, um modelo de educação que os pais almejavam para seus filhos, já que exerciam forte influência sobre o futuro deles.

Durante a cerimônia de abertura do ano letivo, o novo professor, John Keating, é apresentado aos estudantes e, devido a seus métodos pouco convencionais, ganha a simpatia dos alunos, mas, em contrapartida, provoca incômodo à Direção do Colégio.

Conhecimento, vontade e liberdade:

O filme é repleto de situações que podem nos remeter a muitos pensadores, haja vista que a busca do conhecimento, vontade e liberdade sempre foram objetos de reflexão. Para Sócrates, por exemplo, a educação tinha como finalidade não somente a transmissão de conhecimento, mas a busca do autoconhecimento, conforme sua célebre frase “conhece-te a ti mesmo”.

No decorrer da trama, o Prof. Keating acaba alimentando as divergências entre pais e filhos na escolha da carreira, instigando os alunos a se questionarem sobre suas vontades. Seus métodos de ensino acendem o conflito entre a tradição do Colégio e a liberdade de escolha dos jovens. Ainda mencionando Sócrates, “uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”.

A questão da liberdade é levantada desde o início do filme, quando os alunos são obrigados a se curvarem aos princípios embasados nos quatro pilares da Instituição. Entregues aos cuidados do Colégio, passam a adotar uma postura quase militar, o que impede eventuais expressões “fora dos padrões”.

No existencialismo de Jean Paul Sartre, o filósofo francês desvincula a liberdade da vontade divina e conceitua que ela é uma decisão individual. “O homem é condenado a ser livre”, sendo, portanto, único responsável por suas escolhas, não havendo determinismo, um destino pré-estabelecido na vida.

Destaque para o personagem Neil Perry, estudante entusiasta das ideias de Keating, que resolve seguir seu coração e, movido pela poesia, descobre o teatro como objetivo de vida. Mas essa escolha esbarra na vontade do pai, que decide que filho será médico. Ao ver seu sonho frustrado, o jovem lança mão de uma atitude trágica.

Entendo que “Sociedade dos Poetas Mortos” é um filme denso, que aborda vários níveis de relacionamento humano, ficando explicita a dissonância nas relações entre instituição e professor, colégio e alunos, educador e educandos, pais e filhos, além das diferenças de atitude entre os próprios estudantes.

Decorridos mais de meio século, ainda persistem os questionamentos quanto aos objetivos das instituições, padrões e qualidade de ensino, relações familiares e métodos de educação, insatisfações da juventude, entre outros. Enfim, reflexos do comportamento humano, na eterna e intrincada busca por uma convivência mais harmônica.

Para finalizar, vale lembrar a poesia de Henry Thoreau, mencionada no filme:

“Fui para os bosques para viver deliberadamente, para sugar todo o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida, e, para quando morrer, não descobrir que não vivi”.

Nela está contida a necessidade de se viver intensamente a vida, tal qual a expressão Carpe diem, que vem do latim e que significa “colha o dia”, ou “aproveite o momento”.

 

Um texto de Paulo Cesar Paschoalini http://pirafraseando.blogspot.com.br/

Credito : Portal Raízes www.portalraizes.com

“Tudo que eu devia saber na vida aprendi no jardim de infância” – por Robert Fulghum

Quando crianças, parece que encaramos a vida como se estivéssemos num eterno jardim de infância, sem perceber que de alguma forma a vida já nos mostra grandes e valiosas lições. Esse é um texto que sempre gosto de ler, não apenas pela simplicidade das palavras mas também pela profunda reflexão que ele me convida a fazer.

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Tudo que eu preciso mesmo saber sobre como viver, o que fazer, e como ser, aprendi no jardim-de-infância. A sabedoria não estava no topo da montanha mais alta, no último ano de um curso superior, mas no tanque de areia do pátio da escolinha maternal.

Vejam o que aprendi:

– Dividir tudo com os companheiros.

– Jogar conforme as regras do jogo.

– Não bater em ninguém.

– Guardar os brinquedos onde os encontrava.

– Arrumar a “bagunça” que eu mesmo fazia.

– Não tocar no que não era meu.

– Pedir desculpas, se machucava alguém.

– Lavar as mãos antes de comer.

– Apertar a descarga da privada.

– Biscoito quente e leite frio fazem bem à saúde.

– Fazer de tudo um pouco – estudar, pensar e desenhar, pintar, cantar e dançar, brincar e trabalhar, de tudo um pouco, todos os dias.

– Tirar uma soneca todas as tardes.

– Ao sair pelo mundo, cuidado com o trânsito, ficar sempre de mãos dadas com o companheiro e sempre “de olho” na professora.

Pense na sementinha de feijão, plantada no copo de plástico: as raízes vão para baixo e para dentro, e a planta cresce para cima – ninguém sabe como ou por quê, mas a verdade é que nós também somos assim.

Peixes dourados, porquinhos-da-índia, esquilos, hamsters e até a semente no copinho plástico – tudo isso morre. Nós também. E lembre-se ainda dos livros de histórias infantis e da primeira palavra que você aprendeu, a mais importante de todas: Olhe! Tudo que você precisa mesmo saber está por aí, em algum lugar. A regra de ouro, o amor e os princípios de higiene. Ecologia e política, igualdade e vida saudável.

Escolha um desses itens e o elabore em termos sofisticados, em linguagem de adulto; depois aplique-o à vida de sua família, ao seu trabalho, à forma de governo de seu país, ao seu mundo, e verá que a verdade que ele contém mantém-se clara e firme. Pense o quanto o mundo seria melhor se todos nós – o mundo inteiro – fizéssemos um lanche de biscoitos com leite às três da tarde e depois nos deitássemos, sem a menor preocupação, cada um no seu colchãozinho e cobertor, para uma soneca. Ou se todos os governos adotassem, como política básica, a ideia de recolocar as coisas nos lugares onde estavam quando foram retiradas; arrumar a “bagunça” que tivessem feito.

E é verdade, não importa quantos anos você tenha: ao sair pelo mundo, vá de mãos dadas, e fique sempre “de olho” no companheiro.”

maria ramos

(Texto de Robert Fulghum - todos os direitos e creditos reservados)

Diálogo de amor – “a gente precisa estar atento para não estragar as crianças” – Um lindo texto de Lucas Tauil de Freitas

1509110_643794122375226_3438408401778165112_n[1]“É da maneira com que falamos com as crianças que nasce a voz interior que vai acompanhá-las por toda a vida.” A frase que escutei da pedagoga Mary Willow tornou-se um dos faróis pelo qual navego a vida. Tom de voz, atitude, equilíbrio e a intenção profunda com que nos dirigimos aos pequenos moldam seu encontro com a linguagem. Essa mesma fala dá vida ao diálogo interno que os habita e, por vezes, inferniza. Há 13 anos mergulhei no universo da educação com o nascimento de Clara, minha primeira filha. Entrei nessa água pelo quintal mágico de Terezita Pagani, fundadora da escola Te Arte, em São Paulo. A sabedoria dessa capixaba polia mães e pais para que não estragassem as crianças. Quando fomos viver em Paraty, no Rio, sentimos por não haver uma escola como aquela. Angustiado, procurei a Terezita. E ela me disse: “Se não tem, faça uma”. Respondi que não sabia nada de educação, que era jornalista e minha mulher, publicitária. Então ela me sugeriu uma conversa com Ada Pelegrino, uma psicóloga com larga experiência com grupos e suas dinâmicas.  Lá fomos Sandra e eu encontrá-la. Ada, com sua serenidade, nos aconselhou: “Não pensem em fundar uma escola. Um passo de cada vez. Façam um bolo e convidem outros pais com as mesmas questões para conversar”. Reunimos oito casais, um par de bolos e, semanas depois, nascia o Quintal Mágico, em Paraty. Érica Zanventor, uma das mães do grupo, assumiu o papel de professora com o apoio da Fabíola Guadix. O sonho ganhava asas. As meninas foram para São Paulo estagiar na Te Arte e, enquanto isso, conseguimos um casarão com jardim em troca das reformas necessárias no imóvel. De frente para o rio, nossas crianças nos viram bater o chão da casa, que estava no contrapiso. Um grupo sincrético com pescadores, agrônomos, artesãos e toda sorte de profissões caiava paredes, limpava entulho e envernizava. O desafio de iniciar uma escola crescia. Um casal de pais, Lena Miller e Pablo Pontes, tinha experiência com a pedagogia Waldorf e convidou a pedagoga carioca Denise Domingues, a Nina, para nos oferecer uma palestra. Estávamos entusiasmados com o método criado por Rudolf Steiner, que integra o desenvolvimento físico, espiritual e artístico. Mas tínhamos um pouco de resistência, já que muitas escolas que seguem essa linha são também elitistas. Isso se derreteu com a experiência de Nina na favela da Maré, no Rio. Queríamos um lugar para todos e acessível para a gente simples dali. A escola tomou vida própria. Mas nossos rumos, um dia, se separaram. Sandra, Clara, Júlia e eu soltamos as amarras e navegamos. Foram três anos entre Brasil e Nova Zelândia e educamos as meninas a bordo. Em Auckland, encontramos uma escola na vila de Titirangi e lá estamos. E foi com os desafios adolescentes da minha primogênita Clara que descobri o aconselhamento de Mary Willow. E me lembrei de que a gente precisa estar atento para não estragar as crianças. Minha menina virou moça e trabalha para ser a voz gentil e firme que a apoia.”

Um texto de LucasS Tauil de Freitas – todos os direitos reservados. Creditos Revista Vida Simples digital