Crônicas de maria: Da janela eu vejo

Open-windowQuase todas as manhãs pelo instagram, vejo belas paisagens da cidade de São Paulo com a seguinte legenda “da janela do meu apê”. Fico fascinada com as fotografias quase sempre “sem filtro” e mesmo não querendo, acabo comparando com a vista que tenho “da janela do meu apê”.

Não tenho o privilegio de morar em uma cobertura, por isso da minha janela vejo apenas um emaranhado de outras janelas e sacadas cercadas de prédios por todos os lados, visão que só quem mora em sampa consegue entender.

E foi numa manhã qualquer, que tentando fotografar o céu com o pouco de espaço que me resta de visão azul, comecei a reparar que mesmo sem grandes céus minha vista tem lá seu charme poético porque guarda alguns mistérios.

Vejo o moço do 3º andar, que coloca duas cadeiras na sacada – uma branca e uma amarela – sempre na mesma posição, uma de frente para  outra como quem espera uma visita para aquela conversa olho no olho.

Os vasinhos da moça da sacada do 2º andar sempre bem arrumadinhos com seus quadros e mensagens na parede, tão delicado que mais parece o lugar preferido do apê (quem sabe não é?)

Tem a bagunça e a desorganização do rapaz do 5º andar, as vezes sem tempo para arrumar e organizar sua própria vida.

O cachorro preguiçoso do andar de baixo, sempre deitado no seu espaço olhando para o dono que nunca deixa a porta fechada, demonstrando uma total parceria de cumplicidade e confiança.

A mochila rosa do 3º andar do lado esquerdo e a janela da direita sempre aberta com as cortinas brancas soltas e ao vento, lembrando até um certo ar de liberdade vigiada.

E o que dizer dos segredos guardados do vizinho do térreo, que nunca abre suas portas? Não digo nada, afinal num mundo de redes sociais, privacidade é um privilegio para poucos.

Enfim… sempre haverá beleza na vida se abrirmos “nossas janelas interiores”. Nessa manhã percebi que da janela do meu apê eu também vejo um céu de poesia, não importa se ele está ou não azul, afinal como diz José Saramago no livro Ensaio Sobre a Cegueira,  A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”

(maria ramos)

Crônicas de maria: A décima quarta lua

A geração Bossa Nova já havia se consolidado, jovens clamavam liberdade pelas ruas e Janis Joplin começava a encantar o mundo com sua voz marcante. Mas Nina era diferente de tudo isso. Menina introspectiva, se perdia entre livros de poesia, romances de Shakespeare, filmes e partituras de musica clássica. Seu maior amigo era um piano que ficava no canto da sala ao lado da antiga poltrona azul. Era ali que Nina gostava de ficar, quase sempre nas madrugadas de lua nova.

tumblr_m0y8c9d7pe1rriptvo1_500[1]Como sempre foi curiosa, aprendeu a tocar, sonhar e “viajar” sozinha pelas melodias de Chopin, Mozart e seu amado imortal Beethoven. Dizia que o som das teclas do piano era o seu passaporte imaginário. Pelo fascínio da musica clássica e amor ao piano, Nina desenvolveu uma cumplicidade única e ao mesmo tempo poética. Sua liberdade era a janela aberta e em quase todas as madrugadas que tocava, a lua estava presente. Lendo as notas musicais, repetia: “Se pudesse ser uma sonata, gostaria de ser a décima quarta”.

O tempo passou, a Bossa Nova se tornou inesquecível assim como a voz de Janis Joplin. As mãos de Nina ganharam marcas e o piano já guardava algumas teclas amareladas. Nas noites de lua nova, o reflexo na janela iluminava as antigas fotografias sobre o móvel.

Nina, agora com passos lentos, senta na mesma poltrona azul no canto da sala, olha para a jovem menina de sorriso doce, dedos longos e delicados, que abre uma partitura ao mesmo tempo que abre a janela e diz:

- Vovó, essa lua é pra você! – E começa a tocar Moonlight, a Sonata numero 14 de Beethoven.

Nina lentamente fecha os olhos e carimba seu passaporte imaginário numa viagem inesquecível ao som do seu amado imortal. Finalmente ela seria uma estrela, ou quem sabe uma sonata, como sempre sonhou…

(maria ramos)

crônicas de maria: Chanson d’amour

_20160106_071241… E na vitrola uma chanson d’amour. Lentamente ela abre a cortina do seu quarto. É primavera em Paris! A Place de La Concorde exala elegância, Sacre Coeur  e Nodre Dame ainda um sinal de devoção. Não demora muito e já está pronta para uma caminhada. Escolhe uma mesa ao ar livre e enquanto espera no Café de Flore, lê as noticias no jornal do dia e imagina como seria encontrar Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir filosofando na mesa ao lado. Abre um sorriso ao saber que próximo dali, na sessão da tarde, um filme de Truffaut será exibido numa mostra de cinema… simplesmente imperdível!

Termina o café. Ainda dá tempo para mais uma caminhada até o encantador e boêmio bairro de MontMartre – há muito tempo não visitava a Place du Tertre – os artistas e boêmios sempre foram um mistério e de certa forma uma fonte de inspiração para ela.

Seu olhar se envolve com a magia das ruas, ela se deixa levar pela poesia e o charme do lugar… abre os olhos e no rádio uma chanson d’amor. Olha o relógio, já está atrasada, prende o cabelo com um um rabo de cavalo, apenas duas gotas de YSL na nuca, faz calor em São Paulo… Não! Ela não mora em Paris nem mesmo visitou suas praças ou seus elegantes cafés. Ela as vezes ouve uma canção, só mais uma canção de amor, abre as cortinas e sonha que de novo é amor… porque “a vida passa em um momento. Será isto possível então?”

Sobre a mesa um dvd de Woody Allen, “Meia-Noite em Paris”… ela sorri e tem certeza que mais tarde voltará a sonhar (amar).

(maria ramos)

 

 

crônicas de maria: Espelho, espelho meu

large[1]Ele achou o cartão de visita e por algum tempo ficou pensativo, olhando e repetindo a descrição  terapeuta, terapeuta, terapeuta…

Depois de muito hesitar, tomou coragem e marcou uma consulta. Chegou até o consultório. Tudo bem organizado, livros em ordem na estante, secretária falando baixo, velas aromatizadas, musica ambiente, ninguém esperando. A hora estava reservada somente para ele. Se identificou, aceitou  um café, sentou e enquanto aguardava, pensava como seria deitar num divã! Uma mistura de incomodo com curiosidade tomava conta daqueles minutos de espera.

Vários amigos já haviam comentado que terapia não era nenhum bicho de sete cabeças e por isso resolveu “arriscar”, afinal era só um bate papo de 40 minutos pra tudo estar resolvido. Nada mais simples e objetivo.

Ouviu o barulho da maçaneta se abrindo. Viu saindo da sala uma mulher super elegante, não mais do que 40 anos e com um sorriso estampado no rosto se despediu dizendo – “Ate a próxima semana!”

Próxima semana?! Como assim? O que se tem para falar com um estranho por mais uma semana que não se fala em 40 minutos?

Enfim, chegou a sua vez. A secretaria o acompanhou até a sala, fechou a porta e ele ficou ali frente a frente com a terapeuta, imóvel. As mãos nessas horas parecem que se transformam em oito como se fossem polvos, não há espaço para elas, não se sabe se as colocamos no bolso, ou se cruzamos os braços… Ele estendeu a mão e disse simplesmente – Muito prazer!

- Sente-se por favor! – disse ela.

Olhou discretamente e frustrado não viu nenhum divã. - Deve ser coisa de profissional moderno, mas sem divã fica difícil dar credito para essa terapeuta. Nunca assisti um filme sem que o paciente não se deitasse num divã…

Enquanto pensava, ela sentou  na poltrona a sua frente e com um boa postura, um sorriso de boas vindas, olho no olho lhe disse: - E então! O que te trouxe ate aqui?

- O que quer dizer? Ou… ou  o que quer que eu diga? – ele perguntou meio já sem graça e um pouco nervoso.

- Podemos começar por  “definir” Quem é você? – ela tentou dar inicio a conversa.

Olho no olho novamente e por alguns minutos ficou sem dizer nada. – Como me definir numa terapia? Sou alto, baixo, gordo, magro, advogado, medico, casado, solteiro, rico, pobre, tímido, extrovertido, simpático, um moço simples do interior, um idealista, romântico sonhador  ou um mala rsrs… Isso é definição ou característica? – Nunca imaginou (ou parou verdadeiramente pra pensar) que uma simples pergunta fosse tão complexa e de difícil resposta.

As horas foram passando, a terapeuta (tentando deixa-lo mais a vontade) realizou alguns testes de personalidade, fez algumas anotações. – Gostaria de te ver na próxima semana. Veja se interessa continuar a terapia, mas fique a vontade para dizer “não”.

Ele, sem entender muito o impulso, estendeu a mão e já se despedindo respondeu: – Até a próxima semana… e… no mesmo horário.

Saiu da sala e do consultório calado e ainda mais pensativo.

Chegou em casa, tomou um longo banho. Sentou na cama, revirou as paginas de alguns livros e ali sozinho em devaneios com seus questionamentos e com a misteriosa pergunta latente em seu pensamento, encarou o espelho ao lado da cama…

- Muito bem amigo! Agora somos só nós dois, sem mascaras. Me responda! Preciso saber ou descobrir essa resposta: – Quem é você? Quem somos nós?…

(maria ramos)

crônicas de maria: Estação liberdade

tumblr_ls93vynDNb1qhrmjo[1]Foi num momento de liberdade que Alice comprou o seu primeiro bilhete. Não era um bilhete da sorte ou de loteria, mas era o seu primeiro bilhete premiado!

Como que num conto ou presente de criança, escolheu a janela do avião e com o reflexo das nuvens pela vidraça começou olhar asas e sonhar destino.

Poetas, bossa nova, um circo que voa, pele dourada, “caju”, “all star azul”, musica, arte, sol, mar, vida, um constante navegar… Enquanto as asas pairavam sobre um rio ainda distante, Alice seguia sua viagem.

Foram dois dias, apenas dois! O suficiente para retornar com a bagagem cheia de sonhos e a possibilidade de continuar sendo livre!

Entra novamente no avião, agora de retorno à sua cidade. Escolheu qualquer assento porque o que importava era a sua felicidade não o destino! Satisfeita por ter subido as laranjeiras, penetrado no olhar de Cecília, sonhado com versos de Machado e ao cruzar a rua Nascimento e Silva ter lembrado de Lizette e todos os seus Tons. A garota ainda era queimada de sol caminhando pelas ruas de um poetinha imortalizado, em solo de um corcovado que de tão imponente abriu os braços e ofereceu um pão feito de açúcar, doce como o olhar de Alice! Cada arco, cada escada, cada degrau que subia era uma oração que fazia à santa que poderia ter qualquer nome, mas preferiu chamar simplesmente Tereza.

Ondas que vem e vão num olhar sem diferenças. E o mesmo olhar parou no exato momento em que Alice brindou a paz. Um sol tímido a queimar o mar num dourado brilhante e as janelas coloridas de dois montes de esperanças, um a rimar com cristal e outro com rainha.

Tempos assim, Alice só enxergou quando voou nas asas de um sonho pela primeira vez. E descobriu que novos tempos virão quando recolheu a mala na esteira e começou a renovar suas asas para o próximo céu, porque a estação de embarque e desembarque ela já sabia que seria a mesma… a estação liberdade.

(maria ramos)

crônicas de maria: Evidências

Era mais uma manhã de primavera. Ela acordou, olhou no espelho percebeu mais uma ruga em seu rosto. Inevitável! Não podia adiar… estava completando 50 anos.

Por 2 anos ela ouviu a mesma frase: – “quando você completar 50 vai entender a crise da meia idade. Vai perceber as enormes mudanças!”

Então, tudo estava caminhando para ser um pesadelo ou um grande susto. Finalmente 50! E o dia foi se delineando suavemente como suave era o delineador maquiado em seu rosto.

Acordou disposta como sempre, respirou devagar como aprendeu com a filosofia budista. Entrou no chuveiro e deixou a agua escorrer sobre seu corpo. Se enrolou na toalha branca, secou os cabelos, abriu o pote do seu novo creme francês, e antes de acariciar sua pele, sentiu o frescor do perfume. Um toque de Chanel nº 5 na nuca antes de escolher a roupa do dia. Como era manhã de primavera preferiu um vestido floral em azul. Pouca base no rosto, afinal não queria esconder sua “nova” identidade. Enquanto a maquina de café aquecia, penteou o cabelo e o prendeu com um único grampo num coque elegante. Abriu a porta, recolheu o jornal do dia e com a xicara de café nas mãos seguiu ate a varanda do apartamento e folheou as primeiras noticias daquela manhã.

Sem se preocupar com o relógio ou com as horas, se permitiu mais uma xicara de café enquanto observava pessoas apressadas nas ruas.

Um único gloss nos lábios, pegou a echarpe nude, sua pasta, seus livros, agenda, óculos de grau e cálcio para ingerir depois da  primeira refeição. Ligou o carro e na sua playlist, um jazz bem baixinho.

Resolveu então cruzar novas ruas e novos caminhos. Afinal para que pressa se hoje seria só o primeiro dia da crise da meia idade!?! Queria sentir plenamente essas “enormes mudanças”. E antes do sinal verde do próximo farol abrir, olhou no espelho, retocou o gloss e sorriu… Ahhh sim! Suas novas rugas estavam ali… bem evidentes.

(maria ramos)

Quando a empregada sai de férias

Todo mundo merece férias, mas toda vez que chega julho eu pergunto:

E agora?

Julho é o mês que minha empregada sai de férias. Ela está na família há mais de 18 anos, viu meu sobrinho crescer, alias, ajudou meu sobrinho crescer. Ela passa minha roupa, limpa meus sapatos, arruma meu guarda roupa, organiza minhas gavetas, não deixa minha mãe sem a canja da tarde. Ela lava, passa, cozinha, limpa e ainda me mima com bolinhos de arroz. Como dar férias para esse talismã?

Deveria ser proibido por lei ficar tanto tempo assim com alguém tão perfeito. E a culpa não é das estrelas, é do meu irmão que a contratou rsrsr.

Trinta dias sem ela vai ser um caos! Tenho 50 anos e ainda não aprendi a usar um ferro elétrico e nem por um milagre consigo passar um lençol com elástico! O jeito será seguir a técnica da minha irmã: “Coloque na secadora e assim que terminar tira de lá imediatamente e ainda quente dobre as roupas de banho e estenda a roupa de cama direto na cama. Fica perfeito”.

O duro será fazer isso a noite depois de um dia de trabalho! Céus! E ainda terei a casa para limpar e a canja da minha mãe para preparar sem usar panela de pressão (Sim, acredite! Eu tenho medo de panela de pressão). Por que comprei um ap. com 3 banheiros? Porque tenho tanto sapatos? Porque gosto tanto de bolinhos de arroz? E porque minha mãe não gosta de sanduiche?

A única solução é não reclamar. Trinta dias passam voando Maria! Pense assim e os dias passarão bem rápidos (espero!).

Na verdade não ligo de limpar a casa, ate gosto de organizar. O complicado mesmo vai ser passar roupa e cozinhar! Mas estou aqui pensando… posso usar somente aquelass roupas que não precisam passar, usar o mesmo moletom de final de semana, roupas pretas para trabalhar e torcer para que o frio continue, não comer macarrão com molho ao sugo e em hipótse alguma usar camisas brancas, jamais! Quanto ir para cozinha, ou compro congelados, peço ajuda para irmã, pratico tudo via “fornoterapia”, busco uma quentinha no restaurante vizinho ou insisto no velho macarrão integral com molho de alecrim (isso eu mando bem rsrsr…)IMG_20150712_134029693

 

É! Nem tudo é difícil, basta se adaptar, porque tudo tem solução. É só não me estressar, afinal o que são 30 dias para quem lava, passa, arruma, cozinha e me mima há mais de 18 anos de segunda a sexta 11 meses por ano?

É! Minha empregada merece um bom descanso de Maria.

(maria ramos)

crônicas de maria: cerveja, futebol e um papo adiado

produzido-em-pvc-o-jogo-americano-rotulos-de-cerveja-contem-quatro-unidades-cada-uma-medindo-45-cm-por-30-cm-o-conjunto-sai-por-r-3990-na-loja-online-mulher-cerv[1]A noite estava fria e não estava para encontros nem mesmo cervejas. Mas era noite de quinta feira e há dois anos eles se encontravam no mesmo bar para um bate papo entre amigos e cervejas. Sentavam quase sempre na mesma mesa e os assuntos eram quase sempre os mesmos: futebol, politica, relacionamentos…

- Por que será que nossos assuntos são sempre os mesmos? – perguntou Guto

- Sei lá! Acho que não somos criativos. – sorriu Edu

- Mas… se o país tá ruim, seu time desclassificado, no amor tá tranquilo!

- Mais ou menos Guto

- Como assim mais ou menos?

- Cinco anos juntos cara! Acho que tá faltando algo

- Que nada! Pensa no lado positivo! Uma mesma mulher há cinco anos? Pelo menos você não precisa mais usar camisinha rsrsrs… desculpa! foi só uma piadinha pra quebrar essa cara

- Tudo bem. Na verdade é esse o ponto da questão

- Qual ponto?

- Preservativo, anticoncepcional… essas coisas

- Continuo não entendendo

- Não quero mais evitar entende?

- Não! – Guto deu uma engasgada

- Quero filhos cara! E ela não quer… (silencio). Não vai falar nada?

- Presta atenção Edu! Filho é bom mais dura muito. É pra sempre…

- E não é bom? Você tem um e quase morre por ele!

- Bom? Não, bom não, é ótimo. Mas você sabe o quanto minha relação é complicada. Mas Antônio compensa tudo. Antônio é um puta moleque legal… mudou a minha vida, me despertou um outro lado “amor” que eu não conhecia.

- Então?!…

- Então, então… então se você quer mesmo, abre o jogo com a Bel

- Já cheguei dar uma indireta, mas ela ficou imparcial

- Seja “direto” então! E se ela não topar, dê um tempo. Pelo menos ela já fica sabendo a verdade e da tua vontade, e se gostar realmente de você vai conversar com calma num papo mais maduro, sem indiretas ou imparcialidades. E agora vamos beber, porque depois que esse moleque nascer adeus noites de quinta.

- Como assim adeus? – Edu perguntou meio que surpreso

- Cara! As melhores insônias estão por vir! Choros, febres, cólicas, bronquites, inalações, madrugadas em pronto socorro etc etc etc… é tanta frequência em hospital que você fica amigo do segurança noturno rsrsrsr

E Guto começou a relatar suas noites com Antônio, como se contasse as melhores aventuras de todos os tempos.

- Mas calma Edu! Isso passa, e passa rápido. Filho cresce. É só no começo mesmo e depois você acostuma com a rotina. Tá olhando o que?

- Tô pensando

- Pensando o que?

- Acho que vou adiar o papo “direto” somente por mais algumas noites…

Guto sorriu, pediu mais 2 cervejas e em mais uma noite de quinta, começou a falar sobre as chances de seu time no campeonato paulista.

(maria ramos)

crônicas de maria: Corredores

imagesHTUN31OG   Já passa das 23:00hs. Ele ascende a luz do corredor, o mesmo corredor que serviu de caminho para os primeiros passos. Ajeita mais uma vez o cobertor do filho (hoje com 5 anos), procura na bagunça da gaveta ou na bagunça da sua vida, um termômetro. Lembra que sua avó nunca precisava de termômetro para medir uma febre e diz : – Como vó faz falta!

Deixa a porta entre aberta e caminha do corredor ate a cozinha, lembrando das noites que caminhava livre por ruas vazias a procura de um pub qualquer, uma cerveja belga, um bom rock and roll, um cigarro ou uma linda mulher.

Há 4 anos a campainha do seu pequeno e louco mundo tocou. Abaixou o som, bebeu o ultimo gole da cerveja, apagou o cigarro, deixou os manuscritos espalhados sobre a mesa, cruzou o escuro corredor, abriu a porta e ouviu a voz da linda mulher: – “Preciso de férias e ele não cabe na minha bagagem”.

Lâmpada do corredor para trocar, fraldas que já trocou, freelancer para se sustentar, cadernos para corrigir, reunião de pais, mamadeiras que já esquentou, contas para pagar, bulas que já leu, uniforme para passar, cervejas e cereais kellogg’s para comprar, não ter respostas para todos os por quês, canções para ninar, relembrar historias de super heróis, horinhas de descanso para trabalhar… e exceto quando acontece uma febre no meio da madrugada, sua rotina tem sido assim nesses 4 anos.

Sai da cozinha após beber um copo d’água, tenta trabalhar um pouco ou conversar com alguns amigos por redes sociais. Mas é impossível! Seu pensamento está totalmente conectado no quarto ao lado (ou o único quarto).

Já passa da meia noite e ele permanece ali – sem mesmo entender o porque das curvas da vida – olhando aquele pequeno e ingênuo rosto ainda cheio de mistérios para desvendar e caminhos a percorrer. As ruas lá fora já não parecem tão vazias. Sorri com seus devaneios e antes de medir mais uma temperatura, afina o violão e arrisca mais uma canção

… se eu corro você descansa. se eu morro você me alcança. somos meninos, talvez crianças. o corredor é meu abismo, o seu amor é a corda que preciso para compor a ultima letra perfeita do nosso insano paraíso…

O relógio marca 1:45hs e no mesmo papel que rabisca a canção, anota a temperatura … 36,5º.

A lâmpada do corredor permanece acesa.

(maria ramos)

crônicas de maria: Um tubinho com aroma de mulher

images1Y2YR3GM   Ela não era uma mulher bonita, mas era uma mulher com um “M” diferente das outras. Entrou na cafeteria vestida com um clássico e impecável “tubinho preto”, perolas envolviam a região do colo, um echarpe de seda nas mãos, scarpins, um cabelo preso num coque displicentemente chique e espalhou um doce perfume no ar ao passar pelo corredor, ate escolher a ultima mesa ao fundo. Acenou para o garçom e pediu baixinho :

- Uma agua natural sem gás e um expresso, por favor.

Não colocou nenhum tablet sobre a mesa nem mesmo o celular, simplesmente sentou, acomodou a bolsa na cadeira ao lado e enquanto aguardava o café folheava um recente livro ( parecia recente pois folheou desde a primeira pagina ).

Sem se importar com o tempo ou com os acontecimentos ao seu redor, ela se deixou envolver por alguns breves momentos que pareciam ser eternos… degustou o café, folheou mais algumas paginas do livro como se estivesse acariciando a própria historia. Tudo parecia estar em slow motion, aquele momento era dela e de mais ninguém.

Mas depois, pela primeira vez, olhou para o relógio como se lembrasse de um compromisso. Pediu a conta, pagou, sorriu, agradeceu  e se retirou da mesma forma que entrou… discreta e elegantemente.

Retirou da bolsa um óculos de sol ( provavelmente da mesma marca que seu perfume ), acenou para um taxi e partiu.

Qual destino dela agora?… Uma mulher que não era bonita nem precisava ser, porque era discreta, educada, charmosa, com leve toque de mistério, chique e encantadora como uma parisiense dos filmes de Woody Allen. Não era uma mulher qualquer! Era uma mulher que sabia vestir um clássico e impecável “tubinho preto”.

(maria ramos)