Sim! Cheguei ate aqui… as dores e delicias de passar dos 50

041cf46633e59d65399b66480f029905A expressão “chegar lá” nem sempre é um objetivo, pode significar o curso normal da vida principalmente para quem já passou dos 50, assim como eu.

Confesso que chegar até aqui não foi a vitória mais esperada, mas não deixa de ser um premio. Deixo claro que esse texto não é só sobre maturidade, pois acredito que “ser” maduro não é uma questão de tempo ou idade e sim uma simples questão de “estar”. E se hoje estou feliz, estou plena, estou tranquila, estou realizada é porque aceito a condição do momento e de chegada até aqui, mesmo com todas minhas imperfeições. Se tudo é impermanente, então nada é para sempre. Como diz Cartola, “o mundo é um moinho” e as vezes o vento está a seu favor, e quando isso acontecer, respira fundo e aproveita  o vento no rosto porque isso deve ser aquela tal liberdade.

E para você leitor (a) que ainda não passou dos 50, tenha plena certeza que poderá chegar lá pelo curso normal da vida, e se permanecer curioso irá descobrir que cada etapa da caminhada é uma nova maneira de viver. Fazer  52 não é tão ruim assim, mas lá se vão 1/2 século de vida. Ok! Esqueça o peso do 1/2 século e leia o que se pode aprender quando se chega aos 52. Pode ser que seja uma bela conquista, afinal chegamos até aqui!

1)      Procure sempre  um medico para manter seu corpo físico em ordem, afinal você precisa dele para continuar seguindo. Mas não questione e nem se entristeça, simplesmente aceita! Você está na menopausa, mas ela, assim como uma dor de amor, também passa. Cuide-se bem.

2)      Sua irmã que antes tinha uma grande diferença de idade para ser sua amiga, hoje é sua melhor conselheira e companheira de viagem. Onze anos nem é tanta diferença assim. Aproveita e divirta-se.

3)      O amiguinho do seu sobrinho que você viu crescer e até levou em festinhas de aniversário e dormiu na sua casa, vai lembrar de você e dizer “E aí tia? Beleza?”... e isso é bom, porque você continua sendo inesquecível e incrível, pena que não pode frequentar mais as mesmas baladas que ele frequenta… isso é bom também. Relaxa.

4)      Você percebe que os cabelos estão mais brancos, a pele não é tão rígida e algumas rugas e quilinhos são mais aparentes. Mas assim com os Titãs, Cristiane Torloni, Bom Jovi, Ney Matogrosso, Samuel Rosa, Gloria Pires, Wood Allen, Sonia Braga e Tom Cruise,  seus ídolos também envelheceram e estão cada vez melhores e na ativa. Portanto, você está na moda! Inspire-se.

5)      Você olha as fotos de seus antigos amigos pelo FB  e percebe que eles estão casados há mais de 20 anos, tem filhos na faculdade e alguns já tem netos e só você não tem marido, filhos e netos. Isso pode causar uma certa frustração? Pode ser que em alguns momentos sim. Nessas horas pense nos boletos das escolas e das faculdades que você deixou de pagar e comprou uma passagem para Paris sem dar satisfação a ninguém rsrsrs… Curta a sua liberdade (e Paris).

6)      Antes dos 50 você não tem muita paciência com o idoso, depois dos 50 percebe que generosidade assim como afeto, é a chave e o segredo para uma vida bem vivida, porque como aprendi com  minha irmã, “você só retira da vida o que põe nela”. Ame.

7)      O tempo passa e passa depressa! Não fique parada no tempo, conheça novos escritores, novas religiões, músicos e novos ritmos. Não é para se apegar mas sim para adquirir novos conhecimentos. Mario Quintana disse um dia  que “enquanto permanecermos curiosos estaremos vivos”. Frequente museus, parques, circos, shows de rock, folk ou bandas independentes sem se importar de ir sozinha, afinal você já aprendeu que estar com você é uma delicia. Viva.

8)      E o lado bom de “estar envelhecendo” é que você pode “flertar” com os rostinhos mais jovens, afinal você se tornou inofensiva rsrsrs. Ria e alimente-se do frescor dessa juventude.

C’est la vie mon amour … e mesmo com tantas perdas e ganhos, pesos e medidas, acho que cheguei até aqui com um saldo positivo: A vida se tornou mais leve. Posso olhar para traz e dizer “que pena que a leveza chegou só depois dos 50″, ou posso olhar para frente e dizer “que bom que a leveza chegou depois dos 50…”. Agradeça.

(maria ramos)

Sobre entardecer

IMG_20160912_172404Assim como todas as tardes vão embora, um dia também vamos nos despedir dessas tardes.

Desde a morte de David Bowie e Prince (meus ídolos da adolescência), fico pensando sobre essas despedidas e o quanto isso me deixa profundamente triste. Minha geração está partindo e eu me pergunto por que temos que partir? Por que de repente tudo se vai sem tempo de dizer adeus?

Questionar sobre esses dissabores da vida, me fez lembrar de cada por sol. Pensei no quanto o entardecer é uma forma de gratidão. Se despedir de mais um dia é ser grato, é perceber que despedidas são inevitáveis. As tardes não questionam o processo natural do dia, simplesmente e lentamente cumprem o seu papel nesse palco chamado vida e se soltam.

Moro em São Paulo e de umas tardes pra cá tento desenvolver um olhar mais afetuoso sobre a cidade para perceber que o entardecer por aqui é lindo, e durante a primavera registra uma beleza quase que poética. O sol se vai devagar por traz dos prédios, dos ipês que colorem as ruas e sem pressa, sem demora e sem deixar de brilhar, me dá um tempo para contemplá-lo e finalmente adormece para voltar em novo dia com outras cores.

Assim somos nós frente a vida e frente as pessoas com que convivemos ou que fazem parte da nossa historia. Temos um tempo para aproveitar o brilho da convivência e sem cobranças ou julgamentos, somos convidados a contemplar a beleza dos raros ou breves momentos que para sempre ficarão na memória. Viver, conviver, agradecer e deixar ir… eis o sentido da despedida. Repito aqui uma frase do mestre e bailarino do teatro Butô, Kazuo Ohno: ”faça uma reverencia a tudo que te trouxe ate aqui e… segue”.

Que eu saiba aceitar, contemplar, agradecer, seguir  e por fim entender que a minha geração não está partindo, está apenas “entardecendo”.

(maria ramos)

p.s. a foto aqui postada, é de um entardecer contemplado em uma tarde de inverno na cidade do rio de janeiro. Love.

Só é seu aquilo que você dá

tumblr_static_filename_640_v2É possível respeitar  a opinião do outro sem que isso afogue nossas próprias emoções?

Dias desses me peguei pensando (coisa que faço em demasia) sobre as varias formas de se demonstrar emoções. Pessoas que não demonstram nem sempre são insensíveis. Meu pai foi um homem de poucos abraços, mas tenho certeza que ele sempre respeitou minhas longas declarações de amor, porque recentemente achei essas demonstrações  guardadas com carinho em caixinhas de papelão feitas por ele, e todas as cartas estavam lindamente organizadas por ordem de datas comemorativas (love dad). Mesmo achando o gesto engraçado, todas as noites antes de dormir, deixo minha mãe me abençoar fazendo um sinal da cruz sobre minha testa (love mom).

O fato de uma pessoa achar desnecessário demonstrar suas emoções – ou pelo menos do jeito que queremos que seja demonstrado – não deve abalar quem nós somos. Ninguém tem o direito de anular nossas emoções.

Somos o que damos ao outro. Podemos ate ceder em certos momentos mas é de fundamental importância que as pessoas saibam o que sentimos, ou o que pensamos.

É necessário estar e se sentir vivo, livre e aberto para dar e receber as varias formas de emoções. Escolhas sempre devem ser respeitadas, assim como nossos sentimentos. Não podemos nos anular.

Fui uma mulher que por muito tempo repetiu a frase “- Tudo bem”, quando queria dizer o contrário. Hoje, após anos de análise e sem brigas, exponho o que sinto, o que gosto ou o que não gosto sem nenhum sentimento de culpa.

Conviver com o outro não é tarefa fácil, buscar e encontrar o ponto de equilíbrio é tarefa menos fácil ainda, mas não impossível quando se tem “jogo aberto”. Com sentimentos abertos mantemos nossas escolhas vivas. Nenhuma relação pode ser verdadeira  sem respeito e sem expressar o que verdadeiramente sentimos:

  • Você não escurece meu céu e eu continuo regando seu chão.
  • Você acha uma bobagem esse lance de dia dos namorados?  Ok te respeito, mas saiba que eu acho o máximo e vou te esperar com um presente surpresa e com bilhetinhos de amor espalhados pela casa. Você acha tudo isso cafona? Eu sei, mas você também sabe que eu adoro uma cafonice romântica e ri de tudo isso. Rimos juntos…
  • Eu me permito chorar  assistindo uma cena de amor, mesmo sabendo que você considera cenas de amor ridículas. Eu choro de amor e você chora de rir. Rimos e choramos juntos…

Se permitir! Essa é a palavra. Permita-se, dê espaço a pessoa que você é.

Quando nos respeitamos , automaticamente respeitamos o outro e vamos entendendo que só  aquilo que damos é o que realmente nos pertence. Estamos aqui para conquistar cada vez mais relações humanas e trocar opiniões, compartilhar sentimentos e emoções, sem farsas e sem desrespeito. Vamos ganhando conhecimentos nesse ato de “relacionar-se”  e consequentemente vamos nos mantendo vivos na plenitude do amor, porque como já disse Osho : “O amor nunca é um relacionamento, pois relacionamento é algo acabado. O amor é um relacionar-se – é sempre um rio fluindo, interminável.”

(maria ramos)

I have a dream…

tumblr_lqva80o2if1r2zp95o1_500_largeNa infância lembro que sonhava em ter uma boneca que andava de bicicleta. Quase ninguém tinha essa boneca, só minha vizinha que era rica e desfilava com seu presente de natal bem na minha calçada. Não era inveja, era sonho de criança. Tinha tanta ingenuidade que achava que a boneca que se movimentava através de pilhas era realmente de verdade! Meu pais, sempre muito amorosos, pediam para o papai noel colocar um presente para cada filho na arvore e na noite de natal (e eu disse “um” presente, no singular mesmo), mas nunca dava pra trazer um presente com pilha, o que sempre entendi, afinal meus pais me ensinaram o valor real das coisas desde pequena. Não era uma boneca em si, mas o amor depositado nela que importava, e isso eu aprendi e nunca esqueci.

Fui crescendo e a boneca de bicicleta já era um sonho sem importância, coisa de criança! Meus sonhos já eram outros. Ahhh o primeiro amor de menina! O menino mais lindo da escola! Esse era meu novo sonho, beijar o menino mais bonito da escola. Mas como sempre fui o patinho feio da turma, acreditava que isso era impossível, e por isso passei a sonhar somente com uma troca de olhar. Quando batia o sinal, e terminava a aula de laboratório, corria apontar meu lápis só para ficar na porta e ver o menino passar em frente a minha sala e assim ganhar um “oi e um sorriso” – mas nem sempre isso acontecia. Ahhh mas como era bom sonhar e vê-lo passar!

Continuei crescendo e o menino mais lindo da escola se tornou colega e eu nem achava mais tão lindo assim, já não olhava com o mesmo interesse, o sonho agora era ter cabelos lisos como os de Gloria Pires na novela Dancing Days, e esse eu percorri por muitos e muitos anos até descobrir que ter cabelos crespos como os meus era o sonho de muita gente.

No frescor da juventude, tive o sonho de namorar um homem loiro, de olhos verdes e que soubesse dançar como Tony Manero. Não sabia bem ao certo quem poderia ser, mas tinha que ser loiro, de olhos verdes e que me tirasse pra dançar. De tanto sonhar finalmente ele apareceu! Namorei e dancei com o rapaz mais lindo da cidade e ele era loiro de olhos verdes e dançava. Por um bom tempo fizemos planos e tivemos sonhos juntos, um dos sonhos era amar para toda vida e trocar juras secretas de amor. O tempo passou e percebemos que juras de amor também passam e esses sonhos de adolescente ficam pelo caminho. Segui crescendo e sonhando outros sonhos, John Travolta ainda continua um excelente bailarino, mas também mudou seus sonhos depois que conheceu um certo Tarantino. Eu também mudei e fui morar numa cidade grande.

De repente uma mulher feita na cidade perfeita! Quase chegando aos 30 veio o sonho de ter um filho, que passou ao chegar nos 32  e surgiu a vontade de mudar o país, de ter uma ideologia como tinha meus ídolos do rock and roll. Não queria mais seguir os sonhos do meu pai, queria mudar o mundo, levantar novas bandeiras e rasgar imposições! Com o tempo vi a bandeira desbotar na lama, percebi que o sonho do meu pai em permanecer fiel a uma causa justa e honesta era real. O sonho de mudar o mundo continua porque ainda sonho com uma igualdade social, mas para que isso aconteça é fundamental permanecer com os mesmos valores que aprendi com os meus pais, sem sair do meu país e sem perder minha identidade, agora já fortalecida numa mulher de 50.

E lá se vão 50 anos ou mais! Com muitos sonhos na bagagem, alguns já realizados e confessados aqui mesmo no blog, muitos surreais, outros ainda pra descobrir e continuar sonhando – de casar com George Clooney até um mochilão pelo mundo,  mas com o preço que anda o dólar acho que a primeira opção está mais possível do que a segunda rsrsrs…

Mas o fato é que ultimamente tenho sonhado sonhos simples! E esses andam me fazendo falta, necessários e até difíceis de concretizar, apesar da simplicidade. Porque será que o simples é mais complicado?… Ando sonhando em fazer meditação, caminhar sem pressa só pra relaxar, assistir um filme antigo de Godard nas salas alternativas de cinema espalhadas por São Paulo, passar uma tarde livre lendo literaturas de Cordel. Ando sonhando em não fazer mais supermercado, feiras e compras aos sábados, acordar em dia de domingo sem pensar “o que vou fazer para o almoço?”, em fazer um curso durante a semana sem ter que desenvolver tanta logística para encaixar os horários noturnos, assistir a peça de Paulo Miklos numa terça a noite sem ter que pagar hora extra pra empregada, em simplesmente chegar em casa sem hora marcada, retirar os sapatos e sonhar com o silencio para escrever melhor, deitar na cama e dormir 8 horas ininterruptas… Ahhh como é bom sonhar!!!

Por enquanto vou despertando para a realidade, para tudo que já sonhei e conquistei e para as coisas que estão a minha volta, quantas coisas já mudaram e o quanto eu já mudei. Sonhar é bom mas agradecer é indispensável. Mesmo porque o sonho de hoje pode não ser o mesmo de ontem, pode ser ainda melhor!

Sonhos mudam, vão embora ou se movem e eu me permito estar em movimento assim como agora, escrevendo esse texto e cantando a poesia de Almir Sater e Renato Teixeira que diz que a arte da vida é sonhar.

Bons sonhos… ;)

“…cada pessoa levando um destino, cada destino levando um sonho. E sonhar é a arte da vida…”

(maria ramos)

“Quero a menina do sorriso moreno…”

_20160121_235827Nasci numa cidade pequena do interior de São Paulo e há muito tempo não retornava por lá! Por ocasião das festas de final de ano, meu reencontro com a cidadezinha finalmente aconteceu. Mas se com o sol ela proporciona poucas opções de lazer, imagina com chuva!

E foi numa manhã chuvosa sem ter muito o que fazer, liguei o carro e fui dar uma olhadinha na cidade, que como disse, há muito não visitava. Percebi que ela não era mais a mesma da minha infância, porque as casas simples já não existem mais, os amigos mudaram, os professores quase todos velhinhos aposentados e as escolas não guardam mais os mesmos sonhos.

Parei em frente a casa que morei e vivi os últimos anos da minha adolescência de menina de interior. Tudo mudado também! Quase nem reconheci de tanto muro alto, portões e trancas nas janelas.

Rapidamente lembrei que na casinha simples e emprestada pela prefeitura, havia uma janela com vista pra rua, o muro era baixo, o que dava a chance de ver pessoas, vizinhos e trocar um “dedo de prosa”. O portão era azul e a porta não precisava de chaves. Em frente havia uma antiga fabrica de algodão cercada por um muro enorme que particularmente achava feio, frio e sem cor. Todas as vezes que abria a janela (e isso acontecia todas as manhãs), me deparava com aquele muro sem brilho e com o barulho de algumas maquinas ainda funcionando. Até que um dia tive uma surpresa! Abri a janela e também um sorriso, porque no muro estava escrito em letras grandes: “QUERO A MENINA DO SORRISO MORENO”

Nunca soube quem escreveu e nem mesmo se foi uma dedicatória ou declaração de amor rsrs… O fato é que nunca mais esqueci a tal frase pichada no muro. E ali, por alguns instantes, em frente a casinha, minha memória buscou lembranças nunca esquecidas daquela época de menina.

O muro foi pintado, a velha fábrica de algodão deu espaço a novos depósitos, o portão azul, o muro baixo e a janela já não existem mais, mas a doce lembrança permaneceu viva naquela manhã cinza!

Dizem que é muito chato falar ou escrever sobre velhas recordações e eu concordo com Zé Ramalho quando diz “toco a vida pra frente…”, mas para um dia de chuva sem muito para fazer até que o breve retorno a cidade natal me rendeu algum sorriso, boas lembranças e mesmo no imaginário, pensei que um dia já recebi uma declaração de amor, escrita no muro de uma fabrica de uma cidadezinha do interior…

Retornei para cidade grande e percebi que mudei também e mesmo não sendo mais aquela menina, voltei a ler os muros da cidade para encontrar novos motivos para sorrir. Tenho certeza que por traz das palavras e dos gestos desses artistas urbanos sempre será possível decifrar uma poesia ou outras declarações de amor, seja para quem for. Pode ate ser pra você!

Por isso, quando encontrar, leia, decifre, abra “sua janela” e simplesmente sorria.

(maria ramos)

“eu vou contar pra todo mundo, eu vou pichar sua rua… quem sabe então assim você repara em mim…”

A vida é mesmo muito frágil…

hqdefault Em visita realizada num hospital, num leito de UTI qualquer, fiquei olhando as fragilidades diante da eternidade do acaso. Um acaso que as vezes me protege e as vezes me trai na demora do aprendizado.

Diante de tantas análises posso dizer que o que me torna frágil é a longevidade sem realizações ou a auto sabotagem do gozo.

Passo pelo tempo e tempo passa rápido, vou prorrogando meu futuro e quando ele chega minha fragilidade me consome por razões que minha razão desconhece ou não encara de frente!

Nessa visita que fiz, conversei com um amigo que me disse -”Quero viver mais 20 anos”. Depois de algumas risadas, já que estamos na casa dos 50, pensei se quero também viver mais 20 anos! Aliás a pergunta correta seria Como quero viver por mais 20 anos?…

Posso me dar o direto de ter preguiça ou acordar tarde sem culpa

Posso deixar para amanhã ou deixar pra lá

Posso contar estrelas ao invés de contar os anos

Posso abrir mais as janelas e menos o fogão

Posso chorar mais, seja de tristeza, de alegria e sem vergonha

Posso amar mais sem cobranças padrões ou regras

Posso primeiro ir ao cinema antes de ir ao supermercado

Posso lavar a alma ao invés de lavar a louça da pia

Posso sair da rotina e bagunçar a minha vida ao invés de organizar a casa e as gavetas…

Posso? Sim! Claro que posso, mas quero?? A escolha é minha e por isso não posso “subornar” a vida.

Minha irmã tem feito as contas do tempo e sendo otimista (coisa que ela é), acredita que também tem mais 20 anos pela frente, que na classificação dela é pouco e por isso optou em ser mais feliz do que ter sempre razão (frase que ela não cansa de repetir e que já virou uma filosofia de vida rsrsr…)

Nando Reis diz que “certeza é o chão do imóvel, prefiro as pernas que me movimentam”. E enquanto tenho tempo é melhor caminhar e assim tentar descobrir o sentido da vida. Estou chegando a conclusão que o sentido da vida deve ser a morte, por isso me sinto tão frágil frente a esse mistério! A vida é uma linha que me direciona seguir até o fim para depois recomeçar. A forma (ou formula) como percorro essa linha é o que me define. E quando olho a fragilidade de um corpo já vencendo as barreiras do tempo, volto a me questionar sobre a vida, na caminhada que venho fazendo para chegar de volta ao recomeço. Tenho certeza que o pensamento deixado pelo escritor e poeta Oscar Wilde, “A vida é muito importante para ser levada tão a serio”, é a mais pura verdade!

Então por alguns segundos, imito Cazuza e arrisco a preferência por “toddy ao tédio”, porque quando a fragilidade do tempo me tocar não vou querer “luxo nem lixo, quero saúde para gozar no final” e não vou esperar uma próxima visita num hospital para acreditar nisso.

(maria ramos)

p.s. Quando terminei de escrever esse texto, fiquei sabendo da morte do meu ídolo David Bowie. É! A vida é mesmo muito frágil… e só por isso já valeria a pena conduzi-la com mais leveza.

 

Sobre a mesa e sobre amigos, sobretudo portas abertas e um violão, porque é sempre Natal

IMG_20151214_011853O momento de dar adeus para mais um ano, sempre foi um momento de refletir um pouco sobre tudo o que fiz e o que me foi importante. Ao contrario de muitas pessoas, Natal pra mim nunca foi uma data alegre ou esperada. Sempre tive uma certa vontade de estar em quietude. Hoje até confesso isso com mais naturalidade, sem medo de chocar ou não ser compreendida. Claro que entendo o valor da data, respeito e participo. É o exagero, a correria, obrigações e padrões que de certa forma me incomoda. Penso que Natal é feito de dias especiais e não somente de um único dia especial com data e hora marcada.

Nesse ultimo fim de semana reuni alguns bons amigos em casa para um almoço e registrei a importância de aproveitar o tempo desses encontros, mesmo esquecendo de registra-los em fotos. Antes de abrir uma garrafa, abri a porta do meu pequeno apartamento para receber esses amigos que a vida me deu de presente nessa encarnação (mas com a nítida certeza que eles já fizeram parte de outras). E entre um papo e outro, entre risadas, aguas e cervejas (mais cerveja do que agua rsrs), fiquei por alguns momentos olhando a nossa reunião. Quando nos despedimos, fechei a porta e disse: – Isso é Natal pra mim! Ter um lar para abrir a porta, doar e acima de tudo receber boas energias, misturar e se encantar com as diferenças sem regras ou etiquetas, sem esperar por uma data especial, porque especial é aproveitar o momento que se vive e sobretudo como se vive. Entre amigos, boa conversa, jazz e folk, entre o “profano e o sagrado”, loucuras e sanidades, louças pra lavar e poesia, gafes e papo serio, entre a sofisticação do brie com aspargos e o divertido estrago que um único alho pode causar na sua tigela de porcelana chinesa, entre presépios esquisitos, incensos, anjos, Budas paz e amor (amor sempre), o requintado sal rosa do Himalaia em contraste com o bacon “perfumando” toda casa, entre panelas nunca usadas, cafés e os cigarros que faltaram, eu percebi que mesmo sem falar de Natal ou religião, a essência estava presente 13 dias antes da data marcada, como se Jesus fosse a arte do encontro (do encanto). Lenine já cantou que “a vida é tão rara”, então todos os dias que deixo a vida nascer, criar e pulsar, isso é Natal pra mim!

E o domingo ainda terminaria com a porta aberta para receber outra amiga querida (e essa eu tenho certeza que em outra vida foi minha irmã), e que ao sair deixou um leve perfume sobre o ar (lar), com a promessa de voltar antes do aroma evaporar.

Um brinde ao Natal de todos os dias e que eu possa receber (merecer) os meus outros “25 de dezembro” com…

* menos exagero de comida mais agradecimento sobre a mesa

* menos presentes mais presenças

* menos datas programadas mais encontros casuais

* menos discussão  mais inspiração

* menos supérfluo mais essencial

* menos sofisticação mais diversão

* menos decoração mais emoção… porque a beleza do Natal está nos olhos de quem vê (de quem vem) e independe do dia.

Ao invés de comprar um novo sousplat para compor minha mesa, acho que vou comprar um violão, porque o papel e o lápis já estão sobre a mesa… Sobre os amigos? Ahhhh… esses sempre encontrarão as portas abertas e uma parte do meu Tempo para “cigarros, cafés e canções para embalar…” os nossos encontros.

            Feliz Natal! Hoje, amanhã, dia 25 e todos os dias que vier ou que quiser

(maria ramos)

Lá dos tempos da minha avó…

“Certas coisas deveriam ser como os Clássicos, ou seja, eternas!” Essa frase ouvi recentemente em um filme que assisti. E na mesma semana que eu postei uma foto antiga na pagina do meu grupo de amigos da adolescência, o programa “Papo de Segunda” abordou um assunto sobre Nostalgia, na minha playlist a canadense Diana Krall (a musa do jazz da atualidade) encanta com uma nova roupagem a musica “Cry me a river”, um clássico dos anos 60 imortalizado na voz de Ella Fitzgerald.

O que será que está acontecendo? Coincidências ou necessidades?

Se somos uma geração tão instantânea, porque essa valorização com o “velho”? Minha casa tem uma parede de azulejos antigos, na casa da minha sobrinha uma cadeira de balanço do vovô, minha amiga tem uma maquina de costura Singer, sem contar o guarda-comida, a vitrola, o disco de vinil, louças, roupas e outras peças decorativas que em lojas especializadas custam uma fortuna! Mas sempre quando vejo digo: - Isso me lembra a casa da minha avó…

E aí bate aquela nostalgia e entre um papo e outro, temos saudade daquela época ingênua, com mais redes na varanda e menos redes sociais, mais olho no olho e menos selfs, mais café no bule e menos café goumert… Meus avós educaram 11 filhos, viveram até os 92 anos não tinham carro muito celular e computador. Como conseguiram?

Não sei! Mas na verdade não acho que isso seja um saudosismo, essa “saudade” de vez em quando resgata um momento de descanso e de reflexão para essa vida tão agitada que levamos hoje em dia. Tudo tem o seu tempo, sua necessidade e evolução. E a cada tempo um momento para viver, apreciar e aprender que cada instante é único mas que também passa. Se hoje estamos resgatando ou repaginando esses bons momentos é porque eles foram inesquecíveis, se não para nós, com certeza para o nosso tempo ou para uma geração. Olhar para a velha maquina de escrever Olivetti do meu pai, é como tê-lo pertinho de mim novamente e lembrar que ela (ou ele) teve uma boa historia para contar.

A beleza do antigo não está na comparação com o novo.Está na sua historia, no momento que se vive (ou se viveu) e o que cada um representa (ou representou). E se conseguimos resgatar um pouco desses clássicos para o nosso dia a dia, para nossos filhos, sobrinhos ou netos, é sinal que tudo valeu a pena e a vida segue, porque vivemos no mundo e o mundo vive em nós. E um mundo com boas lembranças e com boas historias para contar, com certeza sempre será um mundo melhor.

Se você sonha com o antigo guarda-louça da sua avó e acha que ele ficaria lindo na sua sala, saiba que o seu olhar mudou! Você está aberto para receber, integrar e trocar ideias com outras gerações. É como entrar na maquina do tempo, lembrar (buscar) o que foi bom e prestar uma homenagem.

Se o “velho” móvel ainda inspira e agrada, pode ter certeza que a página do livro da nossa vida possui um grande conteúdo e com certeza será um prazer  escrever os próximos capítulos. Se vou escrever no computador ou na velha escrivaninha com a caneta tinteiro do meu pai? Se vou ouvir uma boa musica baixando uma playlist ou rodando meu vinil? Não importa… o que vale mesmo é saber viver no momento e na geração que se vive, porque no fim (quando bem vivido) nada envelhece, tudo se transforma no bom e velho clássico. Assim mesmo! Igualzinho como era lá nos tempos da minha avó…

(maria ramos)

Retratos

Há 3 dias me despedi de uma pessoa muito querida. Há 3 dias perdi todas as minhas fotos registradas em celular e mesmo transferindo para um arquivo, todas, absolutamente todas desapareceram da pasta. O que esses dois acontecimentos tem em comum? Digo que tudo. Porque falo aqui de apegos e de perdas e o quanto eles ainda me abalam, mesmo sabendo que nada é para sempre.

No primeiro momento, assim como a noticia do desencarne, eu também me desesperei com as fotos apagadas. A mesma sensação de vazio e impotência. A ultima foto que tirei com ela vestida com a blusa de bolinha branca que dei de presente no dia do seu aniversário, não estava mais lá para lembrar! O ultimo registro do seu sorriso junto ao meu, simplesmente não era mais possível ver.

IMG_20150927_082224Incrível como guardo memorias em fotografias. São as fotos que resgatam as lembranças, que me transporta para bons momentos. Mas depois que o desespero passou (porque quando aceito o fato, passa), pude perceber que o “apagão” das fotos teve uma razão: Momentos bons são eternos quando guardados dentro de mim e não somente em papeis amarelados. Passei o dia da noticia em silencio e atrás de minhas memorias. Memorias das perdas que já tive, que já vivenciei e o quanto me agarro em fotografias, relicários, porta-retratos sobre estandes e paredes para manter viva as imagens de pai, irmãos, avós, tios, amigos, infâncias, sobrinhos, familia…

Depois de ver as pastas vazias, percebi também que o melhor arquivo e o mais seguro sou eu mesma, e esse só será apagado se eu quiser e só eu posso revelar. Lembranças, historias, encontros, conversas, momentos e sorrisos são sempre bons de ver, mas acredito agora que se tornam ainda melhores, quando sentidos, quando ainda pulsam em mim.

Se vou rever as fotos perdidas novamente? Acho que não, ou é incerto, assim como não verei mais o sorriso dela me dizendo: “- rezo pra você todos os dias”, ou “- ascendi uma vela pra nossa senhora iluminar seus caminhos”. São coisas que jamais vou esquecer e que fotografias não registram, ficarão comigo para sempre.

Sei que vou seguir em frente e fotografar novos sorrisos, novas imagens, mas o que foi perdido não volta, fica na lembrança da alma, e como já disse Içami Tiba, “o sol se foi, agora ficaram as estrelas”. Acredito que toda a perda tem um ganho, toda despedida tem um encontro. Quando estava em viagem ao deserto e pronta para fotografar, o guia me disse: “- Espera! Não fotografe. Fecha os olhos. Quero que registre apenas com seu olhar e com sua emoção tudo que irei te mostrar agora. Abra os olhos!…” Hoje entendo o que ele quis dizer, porque todas as fotos dessa incrível viagem ao Atacama (eu já falei dela por aqui), também foram pedidas. Se não tivesse guardado na emoção, hoje eu realmente só teria uma foto, nada mais que um papel sem alma.

Tenho certeza que fotografar é uma arte, mas se não servir para captar emoções, não faz sentido! Fotografias são belos registros materiais, mas são meus olhos que registram o que minha alma sente. Vou ter saudades das fotos e do sorriso dela, mas vou recomeçar sem eles porque quando aceito as perdas eu me desapego, as lembranças tornam-se mais leves, mais serenas e eternamente bem guardadas. Se quando fotografei eu estava presente de corpo e alma e se o “retrato” ainda não saiu da minha memória, posso dizer que fui (sou) feliz!

(maria ramos)

“E quando o dia não passar de um retrato/ Colorindo de saudade o meu quarto/ Só aí vou ter certeza de fato/ Que eu fui feliz…”

Categoria Single

Vivem me perguntando : “- você gosta de almoçar sozinha? / – ir ao cinema sozinha deve ser muito chato não é? / – como é viajar sem companhia?…”  Inúmeras perguntas que confesso é estranho responder,  porque na verdade nunca foi um problema sair sozinha para almoçar ou para qualquer outro lugar. Com o tempo e com alguns anos de terapia, descobri ainda que gosto da minha companhia, hoje é muito bom estar comigo. Mas deixo claro que isso não quer dizer que “eu me basto” ou que seja egoísmo, pelo contrario, estar sozinha tem lá suas vantagens mas nem todo tempo é encantador! Amigos, amores ou família fazem falta, mas a ausência deles não significa deixar de fazer o que se gosta ou tem vontade.

Nem sempre é necessário uma outra pessoa para estar com você na hora do almoço (se bem que “almoço” é algo que “pulava” mesmo em boa companhia rsrs). A vida não gira em torno do outro para ser feliz. Se o dia está lindo lá fora e eu estou com uma enorme vontade de caminhar, de ouvir uma apresentação de Jazz (de graça) no parque ou degustar um expresso na acolhedora cafeteria do bairro e não encontro ninguém para me acompanhar… vou sozinha mesmo, e sem problemas! Se não tem ninguém para conversar posso levar um livro, uma revista ou simplesmente aproveitar esse momento de silencio tão raro nesses dias de redes sociais. Não deixo de ver meus ídolos no palco por falta de companhia – só por falta de grana mesmo!

Cada dia é uma nova oportunidade e um dia não é igual ao outro, amigos, amores e família também precisam dessa “solidão”, por isso as vezes se afastam. O importante é aproveitar os bons encontros (e as estranhas perguntas) com muito bom humor. Há pouco tempo, recebi alguns amigos em casa e ouvi a seguinte pergunta: – “Você comprou um apartamento para morar sozinha e ter sua liberdade e fez uma cama de solteiro!! Por que?”. Confesso que a principio não entendi, pois se sou solteira é o obvio ter uma cama com essa categoria. Depois de algum tempo e muitas piadas, sorri e entendi… raciocínio lento é coisa de quem já passou dos 50 rsrsr

Por que será que sempre temos que estar a dois no cinema, no show, no parque, no restaurante, nas viagens, na cama, na vida?!

IMG_20150823_163543256Lembro de uma frase de Robert de Niro no filme Fogo contra fogo : “- Eu disse que estou sozinho, não disse que sou solitário”. Acho que é isso! A falta de companhia não me impede de seguir. Se encontro alguém para conversar, sair para almoçar, viajar, ver uma exposição, degustar um café, rir ou beber junto, ótimo! (e eu amo isso), mas  se não encontro, não tem problema! A única coisa que preciso pedir nesses dias é mesa para uma pessoa ou um quarto categoria single. Hoje fui sozinha, mas amanhã é outro dia. E se os dias nunca são iguais, felicidade é questão de aproveitar todos os bons momentos da vida, seja sozinha ou muito bem acompanhada!

(maria ramos)

“…Sem essa de que: “Estou sozinho” Somos muito mais que isso…”